26 Fevereiro 2013

Janice Rechulski

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                                                                                      Regional Pertencente

                                                                                      APTF-SP

                                                                                                                 Associada ABRATEF
                                                                                                                 Categoria: Fundadora 

Contato:   

janrechulski@hot mail.com 

Instituto Sistemas Humanos

 

Rua Capote Valente 432, conjunto 81 -
Pinheiros - São Paulo -SP

Telefone: +55-11-3064-3288 

Celular: +55-11-97682-6154

HISTÓRICO - CV

Quando me formei, já estava envolvida com os autores e os mestres da terapia de família do Brasil e do mundo, uma vez que passei a ministrar a disciplina “orientação familiar” na UNIP (1978 - 1997). Já acreditava na idéia de que a pessoa do terapeuta é fundamental para o ofício do terapeuta. Desde o princípio, quando dava aulas na graduação da UNIP, eu pedia aos alunos que iniciavam atendimento: “pense que você está levando você para este encontro”.

Um dos primeiros encontros significativos que tive naquela época foi com Sluzki, no Rio de Janeiro. O que eu mais gostei naquele encontro foi ele ter trazido vários vídeos de terapias que não deram certo e abrir para discussão com a platéia. Isso me mostrou uma postura falível do ser humano, que deve estar presente nos terapeutas, e uma atitude de humildade e generosidade. Foi importante perceber que nem sempre dá certo, por mais que nos esforcemos e demos o melhor de nós mesmos.

Naquela época, não havia, como hoje, cursos de especialização e formação em terapia de famílias e casais, ainda não havia se constituído o campo da terapia familiar no Brasil, que veio a se consolidar através da formação das associações regionais e da Associação Brasileira de Terapia Familiar. Porém, muitos eram os profissionais que estudavam e que trabalhavam nessa área. Nos reuníamos para estudar junto e para convidar os grandes mestres que vinham do exterior. Foi assim, que pude participar de seminários com Elida Romano, Maldonado, Sluzki, Carmine Saccu e Maurizio Andolfi.

Minhas parcerias renderam muitos frutos e contribuí para a formação de muitos terapeutas de família e casal. Tai Castilho, Flávia Stokler, Sandra Fedullo Colombo, Lourival Campos, Silvia Rechulski e eu formamos um grupo de estudos e prática clínica que, em 1989, deu início ao Instituto de Terapia Familiar de São Paulo - ITF, após recebermos o aval e incentivo de Elida Romano, que nos supervisionava.

Sandra Fedullo Colombo que se tornou minha grande amiga e parceira. Foi com ela que aprendi a estar na vida e nas relações terapêuticas mais inteira e mais livre e foi com ela que descobri muitas coisas impressionantes. Certa vez, em Buenos Aires, tendo ido ao encontro de Mony Elkaïm, compartilhamos da experiência do assombro diante da delicadeza e da profundidade do trabalho daquele homem tão original. Este encontro deu origem a uma série de encontros que foram, cada um deles, de grande crescimento e aprendizado para minha vida. Em 2000, Sandra e eu nos desligamos do ITF e nos reunimos com novos parceiros, alguns dos quais nossos ex-alunos, e formamos o “Sistemas Humanos” 

PRODUÇÕES - CARREIRA PROFISSIONAL

RECHULSKI, J. - Minha Composição. In: PONTES, M.N. - “Construção pela Vivência em Terapia Familiar”. Roca Editora, São Paulo, 2011, pp 63 a 72.

RECHULSKI. J. - Casamento em Transição. In: COLOMBO, S.F. (ORG):- Gritos e Sussurros: interseções e ressonâncias, trabalhando com casais. São Paulo, Vetor, 2006.

RECHULSKI. J. Relato de experiência no desenvolvimento do papel do trabalhador sistêmico dentro de instituição hospitalar. In: (Org.). GRANDESSO M. A. Terapia e Justiça Social: respostas éticas e questões de dor em terapia. Parte 6, 1 ed. São Paulo: APTF - Associação Paulista de Terapia Familiar, 2001, v. 1,

RECHULSKI. J. - Escolha Sua Terapia. In: (org.). LOPES M. A. Psicoterapia de Casal. 

Capítulo escrito por Janice Rechulski para o livro: "Construção pela Vivência em Terapia Familiar"- 2011 - Editora Roca - Organizado por Marcos Naime Pontes

Janice Rechulski

Muitas vezes basta ser colo que acolhe, braço que envolve, palavra que conforta, silêncio que respeita, alegria que contagia, lágrima que corre, olhar que acaricia, amor que promove. E isso não é coisa de outro mundo, é o que dá sentido à vida. É o que faz com que ela não seja nem curta nem longa demais, mas, que seja intensa, verdadeira, pura enquanto durar.

Cora Coralina

Nasci em uma família judaica liberal muito unida e amorosa. Meu nascimento foi desejado e carregado de expectativas. Eu era a primeira neta do lado paterno e tive como primeira missão homenagear a avó paterna. Ganhei seu nome no Brita, cerimônia judaica para comemorar a chegada de uma filha. Nesta cerimônia, a menina recém-nascida recebe o nome em Hebraico de uma pessoa da família já falecida. Recebi, então, o nome Guita, que em hebraico significa “bondade", o que tem muito significado para mim. A palavra bondade abre um leque de encargos do lado positivo e do lado negativo. A tolerância e a complacência, quando passam da conta, passam a ser grandes defeitos, desprotegendo.

Essa é realmente uma herança do meu pai. Quanta paciência ele tinha! Para ensinar, conversar e incentivar. Cativava as pessoas pela abertura e aceitação às singularidades de cada um, sempre afetivo e interessado pelos problemas e pelas soluções que as pessoas encontravam. Na nossa casa sempre havia um hóspede morando temporariamente conosco. Amiga minha ou amigo do meu irmão. Meus primos e amigos, quando não encontravam acolhida para suas angústias e problemas com suas famílias, acorriam à nossa casa, onde meus pais estavam sempre de braços abertos, olhos e ouvidos atentos e bolso generoso para atender a suas necessidades.

Minha mãe é a figura forte de minha família. Quem tiver a metade da auto-estima, da coragem e da confiança que ela tem está feito na vida!

Muito inteligente e criativa, foi ela quem arregaçou as mangas e foi à luta para recuperar o poder aquisitivo do casal quando meu pai, um rico comerciante, foi à falência. Ela sempre foi muito moderna e inovadora nos usos o costumes, embora fosse muito apegada a mim e a meu irmão, temendo nossos movimentos no processo de individuação. Fez de tudo para não sairmos de casa.Talvez, abrir a casa para receber a todos, fosse uma maneira de nos manter mais perto dela.

Meu pai brincava muito com a gente. Riamos muito juntos, Passeávamos, viajávamos, visitávamos os avós no Bom Retiro.

"Música faz parte da educação de uma moça", dizia meu pai. Assim, íamos todos os domingos ao Teatro Municipal assistir aos Concertos Matinais desde os meus quatro anos do idade. A cultura era um bem muito valorizado em minha família, vinda da Rússia e da Polônia após a primeira grande guerra. Além da música, a literatura era muito incentivada. Minha mãe me apresentou muitos romances e contos maravilhosos e meu pai, além do incentivo a essas leituras, brigava comigo para que eu não lesse as fotonovelas que eu tanto amava (e minha mãe comprava escondido dele). Só estava autorizada a lê-los quando adoecia, o que me levava a convalescer multo além do tempo necessário.

O estudo era levado multo a sério, oito e meio sempre deixando a desejar um ponto e meio para a excelência. Um ponto e meio que me persegue até hoje... Na busca pelo bom desempenho, o vinculo afetivo sempre foi essencial para as minhas experiências de aprendizado. Eu costumava ser uma ótima aluna e gostava de aprender. Era caprichosa. Mas, minha dedicação era amorosa, fundamentada na qualidade da relação com as professoras. Assim, bastou aparecer na minha vida uma professora com quem não senti a mínima empatia para despertar em mim meus aspectos mais delinqüentes. Aprendi a cabular aula e a falsificar baixos rendimentos no boletim. (Claro que isso me valeu um castigo à altura). A partir disso, eu passei a acreditar que a gente só se desenvolve em um vínculo afetivo que gere confiança e acolhimento.

Acho que tudo isso me ensinou lições multo preciosas no ofício de terapeuta de famílias.

Conviver com a diversidade

Estudava em escola brasileira e meu pai sempre foi um grande incentivador das amizades. Dizia que este era um bem fundamental para a vida. Portanto, eu convivia com as pessoas de maneira curiosa, sempre desejando me aproximar de sua forma de vida, sempre querendo conhecer sua cultura e seus costumes. Por exemplo, minhas amigas iam à missa aos domingos e eu as acompanhava. Quando elas iam fazer a catequese para a primeira comunhão eu também freqüentava as aulas. Meus pais nunca se opuseram. Pelo contrário, me deram todo o apoio durante o ano todo em que freqüentei as aulas preparatórias. Claro que não me converti. Meus pais também me ensinaram a preservar nossos valores e nossa cultura. Assim, no mundo das amizades, havia uma troca importante de jeitos de ser e de visões de mundo sem a necessidade da imposição de uma única forma de viver a vida.

Acreditar que no vínculo a gente se transforma ou se cura.

A primeira grande lição sobre cura eu vivi com a minha avó materna. Ela sofria de uma depressão profunda e aterradora e, durante muito tempo, percorreu vários médicos sem conseguir alento. Em Santos, quando veio morar conosco temporáriamente, encontramos um médico que veio à nossa casa e conseguiu o que chamávamos do "milagre", pois ela se ligou a ele e ele a ela de tal forma que tudo se transformou. Meu pai o conheceu no trabalho, sabia que ele era um psiquiatra importante na cidade e pediu a ele que fosse ver minha avó. Ele não apenas aceitou o convite como passou a fazer consultas semanais em nossa casa, o que possibilitou a formação de um vínculo de confiança e de amor que serviu de luz para conduzir minha avó de volta do caminho das trevas.

Nesses tempos, minha avó tinha pesadelos aterrorizantes com a perseguição na Polônia e com o afastamento entre os irmãos (que ela só encontrou quarenta anos depois). Muitas vezes, quem ia lhe fazer companhia e cuidar de seu sono era eu. Então, com ela, aos doze anos de idade, aprendi a conversar sobre os sonhos e tentar encontrar seus significados como forma de compreender o ser que assim se expressava.

Tolerância aos tempos e aos caminhos

Meu pai e minha mãe formavam um casal muito interessante. Meu pai era bastante tolerante e transitava no tempo admirando cada detalhe da paisagem. Minha mãe era ansiosa e estava sempre com o timão nas mãos, preocupada com os ventos e as tempestades, de olho na bússola para não perder a direção. Ele era um homem mergulhado no presente. Ela era uma mulher lançada para o futuro. Eles viviam essa diferença de modo complementar, meu pai ajudando minha mãe a suportar a distância entre o agora e o depois, minha mãe ajudando meu pai a abandonar o desconforto conhecido para enfrentar o caminho em direção ao desconhecido. Juntos, transformavam o presente em futuro. Certa vez, quando meu pai trabalhava como empregado para nos sustentar, tendo ido à falência em seus negócios, foi minha mãe quem acreditou que eles seriam capazes de, juntos, começar um novo negócio que nos traria uma condição financeira mais favorável. Ele temia não ser capaz de fazer mais nada além daquilo que já aprendera na lida. Ela via a necessidade que a vida nos impunha como um desafio ao crescimento e aceitava o convite. Ela creditou a ele a confiança em si mesmo, necessária ao enfrentamento do novo e nebuloso caminho em direção ao futuro. Ela não se enganou. A partir desse momento, foram capazes de construir um novo projeto que nos permitiu reaver a condição perdida.

Ser afetiva como um instrumento de aceitação do outro

Minha família transbordava afeto. Alegrias, tristezas, raivas, perdas, dissabores, comemorações, paixões, tudo era vivido intensamente. Aprendi que os afetos são as maneiras pelas quais nos ligamos uns aos outros e às situações. Nossa família vivia buscando ligações.

O acolhimento aos de fora sempre foi um tema importante. Minha avó materna nos ensinou a importância da caridade ao trazer crianças e adolescentes do orfanato para freqüentar nossa mesa. Minha avó e meu avô paternos resgataram uma prima da Rússia nos tempos da perseguição aos judeus. Meus pais sempre cuidaram de seus funcionários como pessoas da família. Não deixavam faltar nada a eles, contribuindo para a boa formação de seus filhos e a melhoria de sua condição de vida. O convívio com os empregados era, como devia ser, com base na amizade.

Na nossa história, o acolhimento ao outro é considerado uma forma de crescimento. Aquele que chega é sempre recebido numa condição de quem tem algo essencial a contribuir, sempre trazendo tesouros dos lugares de onde veio. Desenvolver habilidades da aceitação e hospitalidade incondicional é um valor que permeia a minha história. Os afetos são facilitadores dessas ligações, permitindo a aproximação com o estrangeiro que mora em cada ser e que mostra sua individualidade pelas diferenças.

Toda expectativa deixa uma sombra de dívida

Como primeira filha, nasci num ambiente carregado de expectativas. Imagina o que é ser filha legítima numa família com tanto jeito para a adoção! À sombra da força das ligações familiares pairava uma dificuldade enorme de diferenciação, talvez, herança das separações traumáticas vividas em decorrência da imigração forçada. Amar o diferente, acolher os necessitados era, possivelmente, uma forma de cuidar, no outro, dos aspectos abandonados e desenraizados de si mesmo, permitindo sentir-se acolhido e assimilado à nova cultura.

As ligações eram tão intensas que, por vezes, se tornavam sufocantes.

Quando a dedicação é muito intensa, internalizamos cobranças que sequer foram sonhadas por aquele que nos ama. Achamos que devemos retribuir na mesma intensidade, mas com a sensação de que jamais será suficiente.

Suportar visitar as trevas certos de que

VOLTAREMOS COM INFORMAÇÃO NOVA

Meu aprendizado com minha avó, que alternava momentos de extrema dor com momentos de alegria e descontração, me ajudou a acreditar que mesmo quando enfrentamos os nossos piores demônios na calada da noite somos capazes de conversar com os anjos com o raiar do dia. As trevas, aquele momento em que você chega ao fundo mais fundo, quando você já não tem para onde fugir, é momento de ausência total. No escuro projetamos todos os nossos piores medos. Mas, os olhos se acostumam ao escuro e conseguem passar a ver. No início, vemos apenas vultos, que vão se tornando mais nítidos e familiares, até que, nas próprias trevas, possamos passar a enxergar e nos guiar pela luz que vem de dentro de nós. A precariedade de recursos para ver saídas nos mobiliza para a luta, nos tornando mais criativos.

A bondade pode ser um peso. Pode ser um aprisionamento, uma dívida impagável, algo interminável. Toda virtude pode carregar em si um germe de terror e dor, seu avesso. Aprendi a ver a dor daqueles que cumprem funções de cuidado. Como se tornam frágeis ao ter tanta gente dependendo deles...

Tornar-se terapeuta

Aos 14 anos de idade comecei a freqüentar o ambiente cultural e político do cursinho do Equipe. Estávamos em 1968. Havia discussões sobre política por meio de programas culturais envolvendo cinema e música e que fomentavam uma visão crítica do momento que atravessa o país e o mundo. O comunismo ainda era considerado como a possibilidade de todos terem um lugar de igualdade, fraternidade e liberdade. eu comecei a vislumbrar a possibilidade de um dia vir a trabalhar com os menos favorecidos. As questões sociais saltavam aos meus olhos como problemas com os quais eu tinha de me implicar.

Aos 17 anos realizei minha primeira grande travessia. Saí da cada de meus pais e vim morar em São Paulo com meus tios e primos, que foram fundamentais na minha formação. Era a época de preparação, que significava para mim o possibilidade de ter uma profissão e ocupar meu lugar no mundo. Como se dizia lá em casa “poder ser alguém". Foi um ano de descobertas e da formação das amizades mais importantes que me acompanham até hoje.

Minha primeira entrada no mundo do ensino superior foi pela porta das ciências sociais. Logo percebi que o que eu queria não era bem aquilo. Queria trabalhar com pessoas, mas do ponto de vista de como as pessoas se constituiam pessoas, de como era formatado o ser de cada ser. Então, minhas queridas amigas Jassanan e Rosaura, me contaram que haviam decidido prestar o vestibular para psicologia. Eu nem imaginava do que se tratava. Elas, então, me seduziram, contando um pouco o que a psicologia que elas sonhavam.

Foi uma delícia estudar junto com minhas grandes amigas! Apaixonei-me pela psicologia de um jeito definitivo. Tive excelentes professores, tendo me encantado tanto pelos estudos que acabei monitora de vários disciplinas, como sociologia, antropologia e psicologia do desenvolvimento, Na mesma época, comecei a trabalhar no colégio Objetivo, no Departamento de Orientação. Foi minha primeira experiência profissional e meu primeiro encontro com adolescentes e suas famílias, Era a possibílidade de intermediar os diálogos entre a escola e as famílias, entre os filhos e seus pais e os diálogos internos dos adolescentes com eles mesmos. Foi uma experiência fundamental na minha vida. Trabalhávamos com mais de mil adolescentes; imagine a diversidade contida neste contingente! Adolescentes em conflito com as famílias, adolescentes envolvidos com drogas, adolescentes apáticos ou deprimidos, adolescentes transgressores, adolescentes lindos e maravilhosos. Foi um tesouro administrar tanta diversidade somada à complexidade das relações institucionais envolvendo professores, funcionários e diretores, cada setor com seus próprios interesses e preocupações, cada pessoa com sua própria visão de mundo. Um dos diretores costumava dizer: “Trabalhando aqui você está adquirindo mil anos de janela”. Acho que ele tinha razão. Essa é uma experiência "fundante" na minha história.

Grandes mestres

Minha opção pela clínica se efetivou no quinto ano da faculdade, quando encontrei Cléia Pilnik e Mary Santiago, que foram minhas supervisoras nas áreas de orientação familiar e psicodíagnóstico. Por intermédio da Cléia travei meus primeiros contatos com os ensinamentos dos principais autores da terapia familiar, como Virgínia Satir, Maurizio Andolfi, Nathan Ackermann e Carl Whitaker. Encantei-me com seu modo de propor a não “patologização" do indivíduo e a maneira como ela dava lugar para o terapeuta na relação com as famílias, tecendo a ponte entre o terapeuta e a pessoa do terapeuta, incluindo sua história de vida e as maneiras como se deixava tocar pelas famílias. Nossa relação foi multo fértil por meio de uma formação continuaria que se tornou possível com minha aprovação para o concurso de auxiliar de ensino em sua área e se estendeu nos grupos de estudos em seu consultório. Foi assim que comecei a aprender a ensinar, ocupando o lugar de professora e supervisora na própria faculdade, logo que me formei.

Mary foi a pessoa que me apresentou a loucura a partir de quem a experimenta. Foi com ela que estudei autores que defendiam o direito de ser louco sem precisar viver o exílio. Basaglia, Lang, Bleger, Moffatt, Pichon-Rivière, Aberastury e Clarice Lispector foram autores que inauguraram minha reflexão acerca das diversas formas que a subjetividade encontra para se adaptar às realidades adversas e que aviltam a liberdade de expressão do ser.

Foi no estudo da psicanálise que encontrei, talvez, as perguntas em relação ao se que mais me instigavam a mergulhar nos mistérios da alma. Ainda na faculdade, nas aulas de psicanálise com Osmir Gabbi Jr. e nos grupos de estudos com Alejandro Viviane fui percebendo a necessidade de ampliar e aprofundar a compreensão dos caminhos da subjetividade. Acreditava que a psicanálise seria o instrumento que me permitiria ser terapeuta, sem desejar ser psicanalista.

Ingressei no curso de especialização em psicanálise do Núcleo de Estudo e Pesquisa em Psicoterapia (NEPP) e no curso de especialização em psicodinâmica do adolescente do Sedes Sapientiae. A maior contribuição desses cursos foi a permissão para me desenvolver como terapeuta, ampliando meu olhar sobre mim mesma e a significação da relação terapeuta-cliente. Minha responsabilidade aumentava.

Amina Maggi foi uma pessoa muito importante na minha vida e na minha formação. Participei durante 15 anos de um grupo de estudos em que cada membro contribuía para o crescimento dos demais. Foi mergulhada nesses vínculos, tão transformadores, que pude me aperceber do potencial de desenvolvimento contido nos vínculos e minha possibilidade de estabelecer vínculos capazes de promover mudanças.

Para mim, a figura dela é de uma maga. Fazíamos nossos encontros em sua casa, o que revelava uma postura de hospedagem do estrangeiro que morava em cada um que chegava ao seu mundo. Ela exercia o que se poderia chamar de um acolhimento incondicional. Ela era uma pessoa muito culta e, ao receber-nos em sua casa, com todos os objetos que contavam sua história, abria nossos olhos para uma reflexão sobre a neutralidade, sempre suspeita. Era o oposto de uma ideia de assepsia para estar com o outro. Para estar com o outro ela se abria toda, se mostrava inteira, se oferecendo como alguém que se interessa pela singularidade e diversidade contida em cada acontecer humano.

Quando a fada madrinha foi de volta para a estrela dos reis magos, o grupo continuou sob a coordenação de Leopoldo Nosek. Foi ele que me libertou das amarras da teoria, me ajudando a entender que a teoria não é tudo. Que é necessária conhecê-la, mas, ter cuidado para a teoria não engessar. Usando a irreverência, que era sua marca pessoal, cada vez que, na supervisão, relatávamos uma interpretação que ele percebesse ser uma tentativa de escapar da tensão da angústia, ele costumava usar a metáfora do macacão: “Você vestiu o macacão de psicanalista?”, pois a análise opera na angústia e a teoria alivia a angústia do terapeuta e o impede de estar mergulhado nos convites que o encontro com cada paciente oferece. Com ele, aprendi a mergulhar sem o uso do macacão.

Ele me ajudou a compreender a importância de entrar em contato com o vazio, de poder suportar os silêncios, as faltas, as ausências, as recusas do paciente, como formas de expressão de sua possibilidade de ser e de estar junto naquele momento, Perceber isso me proporcionou compreender que eu, como terapeuta (e na vida), não tenho de oferecer tudo, preciso estar em contato com meus próprios vazios e impossibilidades. Perceber que não tenho tudo o que o outro precisa foi uma ferida narcísica que levou anos para cicatrizar. Percebi, então, que minha necessidade de oferecer tudo ao paciente, de ser uma mãe mais que suficientemente boa, estupidamente boa, poderia ser sufocante para o paciente e insustentável para mim. Leo Nosek amava uma frase de Guimarães Rosa que me marcou para sempre: "qualquer forma de amor é um sossego na loucura”.

Meus analistas, Carlos de Carvalho e Reinaldo Lobo, me enriqueceram no ofício de terapeuta oferecendo-se como modelos e permitindo que eu abrisse minha caixa de Pandora e descobrisse tudo com que Zeus havia me presenteado.

Mestres da terapia de família

Quando me formei, já estava envolvida com os autores e os mestres da terapia de família do Brasil e do mundo, uma vez que passei a ministrar a disciplina “orientação familiar" na Universidade Paulista (UNIP). Já acreditava na ideia de que a pessoa do terapeuta é fundamental para o ofício do terapeuta. Desde o princípio, quando dava aulas na graduação da UNIP, eu pedia aos alunos que iniciavam atendimento: “pense que você está levando você para este encontro".

Um dos primeiros encontros significativos que tive naquela época foi com Sluzki, no Rio de Janeiro. O que eu mais gostei naquele encontro foi ele ter trazido vários videos de terapias que não deram certo e abrir para discussão com a platéia. Isso me mostrou uma postura falível do ser humano, que deve estar nos terapeutas, e atitude de humildade e generosidade. Foi importante perceber que nem sempre dá certo, por mais que nos esforcemos e demos o melhor de nós mesmos.

Naquela época, não havia, como hoje, cursos de especialização e formação em terapia de famílias e casais, ainda não havia se constituído o campo da terapia familiar no Brasil. que veio a se consolidar por meio da formação das associações regionais e da Associação Brasileira de Terapia Familiar. Muitos eram os profissionais, porém, que estudavam e trabalhavam nessa área. Reuníamo-nos para estudar junto e convidar os grandes mestres que vinham do exterior. Foi assim que pude participar de seminários com Élida Romano, Maldonado, Sluzki, Carmine Saccu e Maurizio Andolfi.

Algumas construções

Graças ao meu trabalho como docente e terapeuta de famílias e casais, fui convidada por Silvia Rechulski a participar de um grupo de estudos que reunia profissionais significativos do campo da terapia familiar em São Paulo e que contribuíram para a realização do primeiro Congresso Brasileiro de Terapia Familiar e para a constituição da Associação Paulista de Terapia Familiar. Neste grupo estavam reunidos profissionais que vieram a consolidar importantes cursos de formação nesta área. Dele participavam Amélia Vasconcelos, Ada Pelegrinni Lemos, Ceneide Ceverny, Eliete Belfort Mattos, Rosa Macedo, Lourival Campos, Tai Castilho, Flávia Stokler e Gilda Montoro.

Neste grupo conheci Sandra Fedullo Colombo que se tornou minha grande amiga e parceira. Foi com ela que aprendi a estar na vida e nas relações terapêuticas mais inteira e mais livre e foi com ela que descobri muitas coisas impressionantes. Certa vez, em Buenos Aires, tendo ido ao encontro de Mony Elkaim, compartilhamos da experiência do assombro diante da delicadeza e da profundidade do trabalho daquele homem tão original. Este encontro deu origem a uma série de encontros que foram, cada um deles, de grande crescimento e aprendizado para minha vida.

Minhas parcerias renderam muitos frutos e contribuí para a formação de muitos terapeutas de família e casal. Tai Castilho, Flávia Stokler, Sandra Fedullo Colombo, Lourival Campos, Silvia Rechulski e eu formamos um grupo de estudos e prática clínica que, em 1989, deu início ao Instituto de Terapia Familiar (ITF) de São Paulo, após recebermos o aval e incentivo de Elida Romano, que nos supervisionava.

Em 2000, Sandra e eu nos desligamos do ITF e nos reunimos com novos parceiros, alguns dos quais nossos ex-alunos, e formamos o Sistemas Humanos: Núcleo de Estudos e Prática Sistêmica, onde demos continuidade à atividade de formação de terapeutas de família e casal.

Minha cara

Gosto de trabalhar com as competências das pessoas. De buscar o saudável na família, seus tesouros para lidar com os desafios, procurando onde eles estão escondidos. Para isso, é necessário vencer o medo do escuro. Acredito que contando e recontando as histórias cria-se a possibilidade de ressignificar e renomear. A gente existe no encontro e no vínculo e, com o outro, podemos entrar mais em contato conosco mesmos. O outro pode permitir que a gente acesse áreas desconhecidas e temidas de nós mesmos. Com o outro a gente se desenvolve. Podemos ir além quando damos as mãos e nos deixamos guiar por corredores escuros confiantes no olhar do outro.

É necessária abertura para o desconhecido, para o inusitado de cada encontro. Não me assusto com o grotesco das pessoas. Gosto de visitar as trevas e as vísceras, pois, a partir delas é que pode surgir a superação e a transformação. É só quando olhamos para a nossa sombra, nos apropriando do nosso "feio", que podemos estar inteiros.

Para mim, é muito importante tirar os indivíduos do aprisionamento na patologia pelo trabalho com a comunicação e as relações, entendendo que o ser se constitui nas relações em que está inserido e das quais toma parte. É importante redefinir os problemas como problemas de ordem relacional, mas, para isso, é necessário entender que somos nós que fazemos o mundo a partir das distinções na linguagem que o fazem nascer.

Gosto de caminhar com a família ouvindo a voz de todas as pessoas, porque, em função de minha história, acho fundamental trabalhar com a diferenciação que pode nascer das perspectivas dos vários olhares. Gosto de ressaltar a implicação de todos e a responsabilidade de cada um nas construções que cada família realiza.

A responsabilidade de cada um está relacionada à sua implicação naquilo que observa. Toda observação emerge a partir do encontro que aquela pessoa realiza na situação. Não há um jeito certo de perceber um acontecimento ou compreender uma situação. Cada um contribui com uma parcela, a partir da sua perspectiva, da sua singularidade e, cada percepção, é igualmente válida e contribui para compreender o todo.

Com a mudança de olhar a gente se compromete muito mais. Você vê que é o agente não só da sua própria existência, mas, também, o agente da existência do outro. Carmine, quando eu falava que gostava do segundo lugar, me disse: “Se você ficar sempre no segundo lugar você condena o outro a estar sempre no primeiro". Isso fez uma mudança significativa na minha vida.

A verdade é transitória e uma percepção, por mais limitada ou equivocada que seja, revela um encontro verdadeiro. Devemos acreditar no que as pessoas dizem como sendo a sua verdade. A verdade para si é o que importa, não uma suposta verdade que abarcaria a suposta essência de uma experiência. Nada é permanente, tudo está sempre em processo de evolução e mudança.

É o olhar que cria o mundo. O mundo não está aí antes que sejamos tocados por ele. Nestes tantos anos de quilometragem encontrei pessoas que me tocaram profundamente. Agradeço, em especial, a meus pacientes e alunos que, com suas verdadeiras histórias, me ajudam a construir o mundo.

DEPOIMENTOS

Sandra Fedullo Colombo

Generosidade é a primeira palavra que me vem ao pensar em Janice! Sensibilidade é a segunda! Conheci Janice em um simpósio, quando apresentou um trabalho sobre luto que me tocou o coração... Silvinha, sua prima, minha amiga, nos apresentou; assim, aconteceu nosso primeiro encontro, falamos de nossos lutos e da vida. Nunca mais paramos de dividir nossas experiências, nossos amores, nossas ilusões, nossos desejos, nossas decepções... nossas férias, nossas viagens e... meus filhos que a escolheram como madrinha.

Enfim, partilhamos a vida, nesses 25 anos e depois de um breve desencontro... nos reencontramos fundando o Sistemas Humanos, no ano 2000.

Como falar dessa grande amiga-irmã, além de lembrar, como diz Marcos, que ela é a única que sabe falar diretamente com a alma?

Não posso esquecer que quando falo com Janice, falo também com Guita, que tem a bondade, a tolerância e a complacência como uma missão redentora das perdas ancestrais.

Reconheço totalmente minha amiga quando escreve: "o estudo era levado muito a sério, oito e meio sempre deixando a desejar um ponto e meio para excelência. Um ponto e meio que me persegue até hoje..." Janice é sempre a porta-voz de livros e filmes interessantes, das novidades do mundo cultural.

Tem uma capacidade maravilhosa para ouvir todas as opiniões, as mais diversificadas, refletir com seus maravilhosos olhos complacentes e buscar, com verdadeira aceitação, uma mediação. Não pensem que ela ficará tranqüila com o resultado... muitas vezes continuará perseguida pelo ponto e meio.

No entanto, penso que Janice-Guita tem um talento especial para trazer uma metáfora, um verso de um poeta, ou uma frase de um escritor, no momento exato, quando uma discussão ou confronto necessita uma ampliação.

Em muitas ocasiões vi nosso grupo tranquilizar-se com suas palavras de continência e de ampliação. Nossos alunos em formação não abrem mão de Janice, pois se sentem acolhidos e compreendidos. Aliás, penso que Janice nos convida a confidências, temos certeza que ela não se escandalizará ou rejeitará nossas sombras.

Meu aprendizado com minha avó, que alternava momentos de extrema dor com momentos de alegria e descontração, me ajudaram a acreditar que mesmo quando enfrentamos os nossos piores demônios na calada da noite somos capazes de conversar com os anjos com o raiar do dia.

Janice é uma terapeuta de formação profunda, com ênfase em uma cultura humanista; traz em sua história a missão de acolher com bondade a dor humana das perdas e desenraizamentos, e luta para que a dívida em relação ao ponto e meio que falta, não a aprisione e empobreça.

Tê-la como amiga, sócia, parceira é possuir um porto seguro, um ouvinte atento; tê-la como professora, como dizem os alunos, é ter olhos inigualavelmente incentivadores; tê-la como terapeuta (dito por clientes encaminhados por mim) é ter a oportunidade de viver a própria história sem medo de ser criticado.

Penso que Hermann Hesse em seu poema "Envelhecer” pode me ajudar a terminar este comentário:

Feliz é quem sabe amar.

Feliz é quem pode amar muito.

Mas amar e desejar não é a mesma coisa.

O amor é o desejo que atingiu a sabedoria.

O amor não quer possuir.

O amor quer somente amar.

Assim vejo minha querida amiga Janice! Com carinho.

(Eliete Teixeira Belfort Mattos)

Quando penso em alguém que tem intimidade com os livros, lembro de Janice. Sempre tem um livro novo maravilhoso para compartilhar e nos convidando a novos contextos e reflexões.

Sensível, fala com os olhos e penetra na alma. Sua história nos conta a fonte de onde aprendeu a receber com carinho, portas abertas e a ser uma anfitriã generosa onde sempre cabe mais um.

Cuidadora por natureza, também conseguiu, por meio da profissão que escolheu, se aprimorar juntando ao natural a seriedade da formação profissional destacando-se pela busca de múltiplos olhares, o que a torna uma terapeuta sensível e voltada a novos desafios.

Fomos nos conhecendo ao longo do tempo nas mais variadas situações até chegarmos a cofundadoras do Sistemas Humanos. Como formadora, proporciona experiências marcantes pelo seu jeito singular de ensinar e também se apresenta como aquela aluna que não deixa de aprender.

Parceira e amiga, faz parte das histórias afetivas que tenho para contar. Agradeço o convite para escrever neste espaço e poder vir a público declarar meu respeito e admiração por Janice.

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