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01 Janeiro 2006

JOVENS, SEXUALIDADE, GRAVIDEZ. E O CASAL, VAI BEM?

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Denise Gomes

Autor: Denise Gomes - Regional: APTF
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Publicado em: 01-Jan-2006 - Livro: Gritos e Sussurros: Interseções e ressonâncias
Link Relativo: http://www.sistemashumanos.org/index.php/producao-cientifica

No Brasil, em uma porcentagem elevada da população, o nascimento de crianças não está associado à formação de um casal. Está, antes, associado a uma maneira de viver a sexualidade que não prevê, necessariamente, uma preocupação seja com a formação de uma família, seja com o controle de natalidade. A gravidez é encarada de modo peculiar.

             A reflexão sobre os aspectos que contribuem para a formação e manutenção do casal ao longo do tempo se faz emergente diante da necessidade de prover e educar as crianças, por um lado, e uma estrutura social que não oferece condições básicas de apoio às famílias.

As questões aqui levantadas dizem respeito a todos os nossos jovens imersos na trama complexa de uma economia cuja principal forma de inclusão se dá através da desapropriação do sujeito de suas qualidades mais estáveis e permanentes, na imposição da tirania de um porvir sempre estrangeiro a si mesmo, sempre alheio, sempre diverso. Daremos destaque a questões pertinentes aos jovens mais desprovidos de oportunidades, de quem podemos dizer que estão em uma situação de vulnerabilidade social acentuada.

E tomamos o jovem em sua primeira aparição: dos 15 aos 24 anos. Queremos acreditar que a juventude ressurja em muitos outros momentos, com sua irreverência, sua alegria de viver e seu profundo respeito aos produtos sociais, sejam eles de ordem afetiva, cultural, política ou econômica.

A Lenda do Boto e as Meninas do Brasil.

Lenda inventada vira vida. E nunca mais se acaba. Tiago de Mello (MELLO, 2003) nos conta a lenda do boto que, dos animais da floresta, pode-se dizer sem ter medo de errar, é o mais namorador. Tanto o rosado, que a gente da floresta chama de avermelhado, como o preto, Tucuxi. Também chamado o “calça molhada”, namora a cabocla que está tomando seu banho ou lavando roupa nas águas da beirada. Desde que a moça seja moça mesmo, que é como se diz de mulher virgem. Mal passam poucos meses e a cabocla aparece grávida.

- Foi o boto, diz, com a cara mais dengosa deste mundo.

O fato existe, e ninguém desconhece, de tantas e tantas meninas que descartam os pais de seus bebês, decidindo criar sozinhas os seus filhos. São casais fortuitos, casuais, afoitos. São casais encarnados, mas sem alma de casal, sem o amor que os una, sem um processo relacional ao longo do tempo, sem um projeto de vida em comum.

Ele morava perto da minha casa. Um dia, na rua, ele disse que queria ficar comigo, mas eu disse que não, porque ele tinha namorada. Aí, uma colega minha trancou a gente num quarto, mas eu consegui escapar. No dia seguinte teve uma festa. Aí eu fiquei com ele. Ele me pediu em namoro pro meu pai, meu pai aceitou, tudo. E, aí, a gente ficou namorando. Daí, a gente tentou morar junto. Eu morei com ele um mês, mas não deu certo, porque ele brigava muito, tinha muito ciúme de mim, tudo, e a mãe dele também não aceitava...

Quando desconfiou da gravidez Maíra procurou uma amiga. Foi com sua amiga que decidiu a quem contar primeiro, a quem não contar e como e quando contar a cada qual. Contou-me que em momento algum teve dúvidas quanto ao desejo de ter esta criança. Este desejo estava presente desde que a irmã mais nova engravidou, aos treze anos. Na época ela pensou “Podia ter sido eu”.

Conheci esta menina de dezesseis anos, grávida, morando de favor com a tia numa favela da Avenida Águas Espraiadas. Estava sem emprego, sem apoio do pai, sem saber o paradeiro de sua mãe. Suas roupas já não lhe cabiam. Tinha medo de voltar para sua cidade e o pai da criança lhe tirar sua filha.

É comum encontrar entre os jovens esta constelação: relações estáveis, vínculos fortalecidos e de confiança com amigos de mesma idade e sexo, podendo cumprir uma função especular identificadora; relações sexuais com parceiros eventuais com os quais não se desenvolve um vínculo seja amoroso, seja de amizade; uma fantasia de que a união pode ser danosa, ao invés de “fazer a força”, a formação de um casal sendo vivida como ameaça de desapropriação; a gravidez como um bem acolhido com prontidão, emblema de potência e autonomia.

Ela apareceu para participar do grupo que realizávamos no meio da praça contígua à favela. Era a primeira vez que contava sua história. Sentiu tristeza e raiva. Não queria falar disso, não queria chorar. Mas as vizinhas se sensibilizaram com sua situação, a maioria delas tinha história parecida. Também contaram pela primeira vez sua história. Os recursos da comunidade passaram a ser mobilizados. Arrumaram trabalho para ela, de faxina e lavagem de roupa. Passou a fazer o acompanhamento pré-natal no posto, junto com uma outra moça grávida que participava do grupo, recebeu enxoval numa instituição religiosa da região, conseguiu um barraco onde poderia passar a morar com o nascimento da criança.

Conseguiu trabalho, apoio da tia e das vizinhas e coragem para começar uma vida diferente com sua filha. Roupa nova. Tinha projeto de voltar a estudar, pois interrompera o segundo colegial ao deixar a vida que levava no interior. Passou a refletir sobre suas escolhas, arrependendo-se de muita coisa. “Serei uma menina cuidando de outra menina”. Dava-se conta das dificuldades que iria enfrentar, mas já tinha um plano: sua tia iria olhar a criança enquanto ela saía para trabalhar e estudar.

Ver-se grávida, sem companheiro, sem apoio da família, sem emprego e sem uma estrutura social de referência é a realidade de muitas e muitas jovens. Quando pensamos qual o casal possível para jovens em situação de vulnerabilidade social vemos que muitos entre eles vivem a sexualidade como algo que guarda uma independência em relação a um projeto de vida ou um sentimento amoroso. Assim como a gravidez. Ela pode acontecer em conseqüência da forma como se vive a sexualidade, mas, sexualidade e gravidez são fenômenos freqüentemente vividos como dissociados. O parceiro sexual é, muitas vezes, plural e, mesmo quando singular, é comum não ser informado de que sua parceira está num estado interessante. Não que se ignore a relação entre sexo e concepção. O que ocorre é uma idéia de gravidez que prescinde da idéia de um casal.

A baixa autonomia até então conquistada e uma perspectiva de vida duvidosa podem contribuir para o surgimento do sentimento de impotência, convertendo o adulto-jovem em um atuador prepotente: atua uma potência que ainda não sente que possui (e que muitas vezes ainda não possui, efetivamente) por não poder reconhecer a potência que de fato possui. Torna-se inconseqüente, pois incapaz de reconhecer através da própria potência a autoria de seus atos (DI LORETO, 1997). No trabalho com estes jovens, devemos introduzir a pergunta pelo casal, distinguindo na linguagem um fio condutor que re-una estes elementos numa linha narrativa que ganhe sentido a seus olhos.

Tenho estado com jovens que perderam o desejo de se apaixonar, que não acreditam na possibilidade de existir amor entre um homem e uma mulher. Em seu projeto de vida aparecem funções a serem exercidas, mas o sonho ainda não nasceu, ou já morreu. Prefiro acreditar que possa vir a ser. 

Virações: eu me viro, tu te viras e eles que se virem...

A operação crackolândia foi instalada na região da praça Júlio Prestes ao longo de 2005 para afugentar os usuários de craque moradores das ruas da região. Eles se espalharam pela cidade, ocasionando elevação do índice de assaltos em outros bairros, pois a operação não foi capaz de fazê-los desaparecer.

Durante a terceira operação, que vem se repetindo, dezenas de carros das milícias municipais e estaduais se aglutinavam na região, abordando transeuntes, donos de estabelecimentos, moradores da rua. De repente, uma mulher grávida, cerca de 23 anos, ao ser abordada por cinco homens, deu uma voadora com o pé atingindo o peito de um dos soldados, que caiu no chão.

Valdirene foi detida. No dia seguinte, uma moça negra muito bonita e bem vestida, sua irmã, esperava pela psicóloga e pela assistente social para pedir ajuda. Estava muito preocupada com Valdirene (que já havia sido liberada e tinha saído em busca de droga), pois ela estava grávida de seis meses, se drogava pesado diariamente e aquele dia era o dia da ronda mais truculenta da polícia. Temia que sua irmã apanhasse a ponto de perder o bebê. Queria levá-la para sua casa, afastando-a do perigo.

A irmã preocupada havia morado na rua durante oito anos. Havia saído desta vida havia apenas dois anos, desde o nascimento de seu filho. Casou-se com o pai do menino e hoje mora numa casa, cuida do filho, vai à manicure, tem até uma moça que a ajuda nos serviços domésticos. De vez em quando, tem uma recaída. Naquele dia, mesmo, teve que lutar contra a fissura de pipar uma pedra com a irmã, que a tentava. Contou que, dos oito irmãos, apenas elas duas não eram evangélicas como os pais.

Foram os amigos da região que “filmaram” a cena do dia anterior e a avisaram do que se passava com Valdirene. Morando numa casa abandonada em frente à praça, ponto de encontro dos “nóias” do local, ela era vista pisando pesado e falando grosso, numa atitude ameaçadora permanente. O pai da criança já não era seu companheiro. Brigava muito com ela, batia, ela já não o queria. Quem a abrigava era o Joy, homem de uns quarenta anos, também negro, mas tinto de tanta sujeira de anos sem tomar banho e trabalhando com ferro velho. Auto-atribuindo-se a zeladoria, só permitia o pernoite a mulheres, a quem chamava, muitas vezes, de filhas. Eram suas filhas de cama. Valdirene, filha.

A casa abandonada havia sido destinada a um projeto[1], que visa criar rampas de acesso à dignidade para crianças e adolescentes que, mais do que a mera familiaridade ou o convívio esporádico com a rua, fazem dela o lugar onde ordenam seu cotidiano, suas relações e suas identidades (GREGORI, 2000).

Valdirene, mãe. Filhos que nascem e crescem na rua têm muita chance de ficar na rua. Aprendem seus códigos e desenvolvem uma familiaridade com este viver. Quais as formas de acesso possíveis? (CASTILHO et alli, 1988).

Histórias que se entrelaçam: em nossa equipe há um cineasta. Formou-se através da participação em um grupo com outros ex-detentos da Febem em liberdade assistida cuja reabilitação se deu através da construção de um filme sobre “a vida do ex-detento em liberdade assistida”. Valdirene o observava com sua câmera. Desejou. Fazer um filme sobre as pessoas que vivem em sua condição. Ela faria o roteiro. Entramos em seu sonho, sonhamos junto. Nosso cineasta seria o diretor do filme, agora no lugar de educador.

Valdirene deixou a casa abandonada futura sede do projeto e alojou-se num hotel nas proximidades. Essa história está sendo contada a cada dia. Nós participamos dela. Tomar parte ou não é escolha de cada um.

 

Como pensam e agem os nossos jovens? 

Saber como nossos jovens pensam, como agem e conhecer as crenças que subjazem ao modo de viverem a sexualidade, a maternidade, a paternidade, os relacionamentos amorosos, é uma tarefa difícil num Brasil de tantos Brazis. A clínica que sai do consultório e vai para o espaço público, que visa o atendimento a camadas da população que vivem em situação de vulnerabilidade social, nos permite, ao menos, ter acesso a algumas facetas deste Brazilzão. Mas é importante ir além da clínica e saber o que dizem os jovens em diferentes partes e realidades de nosso país.

Os dados aqui trabalhados foram colhidos em uma pesquisa[2] realizada pelo Instituto Cidadania com 3.501 jovens de 15 a 24 anos, distribuídos em 198 municípios em áreas urbanas e rurais de todo o território nacional. Este universo é representativo, dos 34,1 milhões de jovens residentes no território nacional, que corresponde a 20,1% de toda a população (Censo 2000, IBGE).

Em primeiro lugar é bom indagarmos o que é ser jovem para o próprio jovem. Para eles, as melhores coisas de ser jovem são: não ter preocupações, responsabilidades (45%) e aproveitar a vida (40%), viver com alegria. Entre as piores coisas as mais referidas são: ter que conviver com riscos (23%), drogas (17%) e violência (9%). Nossos jovens estão assustados e sabem que podem ser atingidos. 38% viveram a experiência de um amigo ser morto de forma violenta, 24% tiveram um primo morto com violência e 20% velaram um tio morto violentamente.

Entre os problemas que mais preocupam estão: a violência, o emprego e as drogas. Relacionamentos íntimos, amizades e sexualidade estão na lanterninha. Quando falam em assuntos de interesse os relacionamentos amorosos e a família ganham bem mais destaque, ficando entre os 5 de maior interesse, perdendo apenas para educação, emprego, lazer e esportes. Nestes depoimentos vemos jovens amadurecidos e preocupados, mas sem se darem conta do quanto já são pessoas responsáveis e comprometidas.

Ao serem indagados quanto aos assuntos que gostariam de discutir com pais e responsáveis a maioria dos homens disse ser educação, drogas, ética e moral e, em quarto lugar, sexualidade. Com os amigos gostariam de discutir drogas, sexualidade, esportes e artes, nesta ordem. A maioria das mulheres discutiria com pais ou responsáveis sobre seu futuro profissional, violência, religião e saúde. Já com as amigas discutiriam sobre relacionamentos amorosos - em primeiríssimo lugar - violência, futuro profissional e moda. (Outros assuntos foram citados, mas, estes foram os de maior destaque).

Para compreender o universo de trocas simbólicas e afetivas destes jovens, além de observar os assuntos discutidos com cada diferente interlocutor, devemos dirigir nosso olhar para a freqüência de conversas, para a importância dada à opinião de cada qual e para as circunstâncias nas quais são solicitadas as conversas com cada um deles. Segundo a pesquisa, as mães são as mais respeitadas e procuradas, entre homens e mulheres, com uma média de 63% das preferências. Porém, sabemos que os amigos são as companhias mais freqüentes e que certos assuntos que, muitas vezes, envolvem decisões importantes, só podem ser falados com as pessoas certas (como vimos no exemplo de Maíra), aquelas em quem se deposita confiança para conversar sobre cada determinado assunto. Vimos acima que os relacionamentos amorosos são discutidos apenas pelas mulheres e entre amigas. Sexualidade e drogas são assuntos conversados prioritariamente pelos homens com amigos.

Entre os fatores mais importantes para a vida deles como jovens 75% identificaram o apoio da família como fundamental, seguido do esforço pessoal e da capacidade de fazer coisas novas. Quanto à confiança nas instituições, 83% dizem confiar totalmente na família. 93% referem jamais ter sofrido violência familiar ou de alguém com quem estivesse se relacionando com proximidade. Quando o assunto tratado foi a satisfação com a vida, 85% dos jovens entrevistados disseram estar muito satisfeitos em relação à família.

A família, além de muito valorizada, foi avaliada como cumprindo bem sua função pela grande maioria de nossos jovens. Este dado contrasta bastante com o que observamos na clínica, a contrapartida qualitativa que nos permite compreender a matemática dos dados. Espaço privilegiado para cuidar de dores e conflitos, o trabalho clínico no consultório, na creche, nos grupos de formação e supervisão, nas praças ou nas ruas nos tem revelado uma família deficitária nos cuidados com seus adultos e suas crianças, tanto por fatores de ordem afetiva e de comunicação como por fatores de ordem de tempo, trabalho e dinheiro. Assim, achamos importante tornar relativos os dados numéricos e procurar compreendê-los à luz do que conhecemos sobre os sujeitos, sempre abrigando vozes distintas em seu interior. Devemos deixar uma brecha para pensar que estas respostas possam refletir o desejo destes jovens, o que estes jovens considerariam como ideal ou, ainda, os mitos que envolvem a família em nossa cultura. Infelizmente, o que temos encontrado em nossa clínica nos permite apenas fiar que estes números representem a satisfação e o reconhecimento do esforço solidário que cada membro realiza diariamente para proteger, prover e dar continuidade às famílias através das gerações. Uma declaração de lealdade, de amor e gratidão merecedora do meu respeito e admiração, mas, também, da minha preocupação. Sabemos que o não-dito oculta, segrega e cala.

Como apoio à nossa interpretação estão os valores apontados por estes jovens, homens e mulheres, como os mais importantes para uma sociedade ideal. Os vencedores são: em primeiro lugar, liderando a lista do que é mais valorizado por eles e por elas, a solidariedade. Bonito. Em segundo lugar, consideram fundamental como valor para uma convivência digna o respeito às diferenças. Quem poderia imaginar... A igualdade de oportunidades é o terceiro valor mais apontado como possibilidade de permitir a garantia de seus direitos. Como pode haver respeito às diferenças se não houver oportunidades para todos e cada um, respeitando as idiossincrasias regionais, raciais, de níveis educacionais, etc? Em quarto lugar, com todo respeito e toda reverência, valorizam o temor a Deus. Força de esperança e certeza de um amor incondicional, sempre presente no percurso trilhado. Sinal, também, de respeito e valorização das hierarquias.

“Mas não, mas não, o sonho é meu e eu sonho que deve ter alamedas verdes a cidade dos meus amores”[3]: a cidade ideal para os jovens seria abundante em solidariedade, as diferenças seriam respeitadas, haveria igualdade de oportunidades e todos seriam tementes a Deus. Estes são os valores mais importantes para a maioria dos jovens brasileiros. Acho que uma cidade organizada a partir destes valores seria, de fato, acolhedora para a infância de todos os filhos nela nascidos. Parabéns aos nossos jovens, isso é motivo de esperança para todos nós.

Já não podemos assumir uma atitude ingênua em relação aos sonhos, revelador de desejos inconscientes... O véu removido pode ser a chave do enigma. Talvez, este sonho também oculte que por trás do desejo de solidariedade se esconda uma necessidade de ajuda, que o respeito às diferenças pode ser o visível do medo de não ser incluído por suas idiossincrasias, que a igualdade de oportunidades mascare a prepotência negadora das impotências e que o temor a Deus possa ser uma proteção contra a própria hostilidade, inveja e tirania. Traços peculiares de nossa condição humana.

Os pesquisadores também se interessaram em saber quando uma pessoa deixa de ser jovem. Nossos jovens de ambos os sexos dizem que a chegada da maturidade, quando o jovem tem que assumir mais responsabilidades, é o principal fator que leva o jovem a mudar de vida. Os cuidados com a família de origem, a chegada dos filhos e o casamento são apontados como os acontecimentos centrais na virada da juventude para a vida adulta. Destacam que a perda da juventude é marcada pela perda da alegria e, muitas vezes, da vontade de viver. Em contraste com estas declarações, 91% acham que a vida vai melhorar (melhor emprego, terminar os estudos, independência financeira). É interessante notar que o trabalho está cotado na área de autonomia, não de responsabilidade, portanto, não se opondo a uma atitude de “ser jovem”. O jovem é, também, trabalhador.

Pelo que pudemos notar, nossos jovens têm grande fé na família, o que nos leva a pensar que os relacionamentos amorosos sejam assunto fundamental. No entanto, entre os homens este assunto não tem nenhuma menção. Este é um assunto falado por mulheres. Esta aparente contradição merece nossa atenção e cuidado. Pode indicar não uma simples ausência, mas uma complexa diferença nos padrões de intimidade e amor. Muitas vezes guardamos a sete chaves aquilo que tem maior valor. Não poderia ser esta uma maneira masculina de cuidar de assunto de natureza tão especial? Nem sempre o que parece ausente inexiste. Pode ser o negativo de uma forma de ser.

Vamos agora observar com destaque os padrões sexuais, reprodutivos e de criação de filhos apresentados por nossos jovens. Entre as mulheres, 31% referem ter filhos entre os 15 e os 24 anos. Entre os homens apenas 13% fazem referência a filhos. Ao todo, 22% entre todos os jovens, ou seja, mais que um quinto, têm o primeiro filho até os 24 anos. 40% destes filhos são planejados, 60% é fruto de gravidez que ocorre sem querer. Se, por um lado, a família de origem exerce papel fundamental em sua vida, por outro, apenas 40% dos jovens planeja o momento e as condições para formar a própria família. Isso significam sete milhões e meio de crianças nascidas que não foram planejadas, sem contar os abortos provocados, que não foram indagados na pesquisa. Este dado nos interessa, pois a importância atribuída por estes mesmos jovens à família nos levaria a crer que eles teriam uma preocupação com o planejamento familiar, com o momento e as condições em que desejariam dar à luz um bebê.

Será que quanto maior a importância atribuída ao apoio da família de origem, menor a possibilidade de ocupar o lugar de pai ou mãe? Ou seja, se o jovem ainda se sente necessitado dos cuidados paterno e materno talvez não possa se ver com recursos próprios para cuidar de outrem, seja um parceiro amoroso ou um filho.

Vejamos, então, quem anda cuidando dessas crianças: 70% das crianças nascidas são cuidadas exclusivamente pelas mães, sem ajuda quer do pai da criança, quer dos avós da criança. Apenas 17% das crianças são criadas com ajuda das avós. 2% são cuidadas exclusivamente pelos pais. Dado interessante: apenas 2% das mulheres referem ser ajudadas pelo pai da criança nos cuidados com os filhos, enquanto 26% dos pais relatam cuidar dos filhos com ajuda. Recado para nós, mulheres: será que estamos sendo capazes de reconhecer os esforços de nossos companheiros, mesmo que eles façam de um modo tão diferente do nosso?

Bem, estes jovens nos disseram que ainda não conseguiram completar os estudos e almejam por um melhor emprego no futuro; não se sentem prontos para assumir as responsabilidades que uma família implica e que têm necessidade de apoio de sua família de origem. No entanto, ao engravidarem, a grande maioria das jovens atravessa o portal que as transforma em seres autônomos, independentes e solitários. Talvez seja por esta mesma porta que se esvaia a alegria de viver.

Diante dessa realidade é possível imaginar que nem todas as jovens mães cuidem elas mesmas de seus filhos[4]. 29% do total das mulheres moram com os filhos, o que significa que 2% das mães não moram com os próprios filhos. Cerca de 340.000 mulheres não moram com seus filhos nascidos nesta faixa etária. 9% dos homens moram com os filhos, o que significa cerca de 680.000 crianças que não moram com seus pais. É um dado alarmante, mesmo sem analisarmos as condições dos cuidados prestados e o tempo de duração das uniões.

Quanto aos casais, apenas 9% dos homens residem com cônjuges nesta faixa etária, e 19% por cento das mulheres. Se 31% das mulheres têm filhos, 12%, ou seja, mais de um terço dos filhos nascidos neste grupo não contam com a presença de um casal. Trata-se de casais reprodutivos que, algumas vezes, têm apenas a criança como vestígio. Quando pensamos que 60% das concepções não são planejadas ou desejadas vemos que cerca de um terço dos casais se consolidam a partir da gravidez ou por causa dela, gerando casais com grande risco de conflitos e separações. Estamos falando em torno de três milhões e meio de casais.

Vimos que nossos jovens sabem que correm riscos, mas não imaginam que estão dormindo com o inimigo. Que risco poderia ser maior do que o de repetir a história indesejada ao invés de escrever uma nova história com o enredo sonhado? Os segredos e os não ditos são elementos traiçoeiros que não permitem ao ser humano exercer uma de suas características que mais o distingue dos outros animais: ser imprevisível. Conversas ao pé do fogão sobre o futuro, sobre os medos, sobre os relacionamentos, sobre projetos de vida podem gerar reflexões que gerem novas reflexões.

Quando escrevia estas linhas recebi um e-mail de um jovem que atendi há cerca de seis anos. Hoje com 23 anos de idade, ele está cursando o último ano da faculdade de administração. Eu atendia à família, que naquela época era sustentada exclusivamente pela mãe com um cargo de cozinheira conquistado através de concurso numa escola da prefeitura. Com o início da terapia, revelou-se o grande sofrimento de Joanice para sustentar e formar seus filhos sozinha, tendo sido abandonada pelo marido num momento em que sequer trabalhava fora de casa, quando os filhos tinham cinco, três e um ano de idade: “Quando meu marido me largou com os três bem pequenos para viver com outra eu não trabalhava. Minha mãe me deu meio frango para eu começar. Fiz coxinha de frango e fui vender na rua”. Como foi difícil este começo e a transição para uma condição digna, quando conseguiu deixar o trabalho na rua para trabalhar em casa de família, o que representou para ela uma grande vitória. Voltou a estudar − havia interrompido os estudos na quarta série − e terminou o colegial à distância através de supletivo.

A mensagem de ano novo de Jônatas dizia: Nunca desista dos seus sonhos, pois o rio das oportunidades passa com suas águas sem que retornem nas mesmas margens de circunstâncias ou situação.

Em alguns momentos precisamos aprender com a serpente, que nos seduz mostrando que há muito desconhecimento sobre nós mesmos e que precisamos experimentar para crescer, mesmo que para isso seja preciso transgredir. Em outros, precisamos aprender com Deus, que criou uma árvore cheia de frutos maravilhosos e proibidos só para podermos imaginar o que jamais poderemos saber a nosso respeito e, assim, criar um novo mundo.

O que observamos diretamente na clínica que desenvolvemos na cidade de São Paulo com algumas dezenas de jovens é corroborado pelos milhares de jovens entrevistados, confirmando a urgência de pensarmos em formas preventivas para fenômenos como casais em situação de risco, crianças vivendo sem o pai ou a mãe e jovens que perdem a alegria e a vontade de viver.

 

Em busca de uma identidade perdida.

No contraste entre ver, querer ter, querer ser e, ao mesmo tempo, as referências próximas mostrarem que nunca será como eles, nunca terá aquilo, a invisibilidade afeta a maior parte de nossos jovens, e os atinge cada vez mais jovens. Como construir uma identidade? O que pode caber nela? Faz sentido se identificar como membro de um casal amoroso com vínculo duradouro ao longo do tempo? Em que histórias se apóiam os sentidos do porvir?

Nas próprias histórias. Alan, por exemplo, morre de medo da traição. Vive me dizendo, naquele seu jeito gago, que se um dia uma mulher o trair ele se separa dela. Essa idéia o deixa muito angustiado. Sua mãe, vive a blasfemar sobre o pai de Alan, que a traiu, o que a faz sofrer incessantemente. Jovina tem medo de namorar, nem pensa nisso. Morre de medo de ser abandonada pelo fantasiado esposo. Sua mãe a deixou quando ainda era um bebê, não suportou ver sua imperfeição: ela nasceu com lábio Leporino. É seu pai quem cuida dela. Ela está muito contente porque o pai está namorando, apaixonado, e vai se casar com uma moça de quem ela gosta muito, e que tem uma filha um pouco mais nova que ela. Tábata, por sua vez, parece um agarradinho. Muito bonita, vive a mostrar seu corpo com pouca roupa, sempre em gestos sensuais. Se esfrega nos meninos, beija-os, deita-se e rola com eles pelo chão. Sua mãe já teve vários namorados, mas eles vêm e vão. Ela vive torcendo para que sua mãe fique definitivamente com alguém a quem ela possa chamar de pai.

Embora a palavra identidade seja comumente usada para referir-se ao que é igual a si mesmo, em psicologia ela também nos remete aos compromissos sociais a partir das inserções na comunidade e do conjunto simbólico que envolve o sujeito, com uma história que determina o lugar que este sujeito irá ocupar no espaço social. O comprometimento social provoca um impacto sobre a identidade delimitando a maneira como o sujeito irá apropriar-se e desempenhar os papéis sociais.

SAWAIA (2002, p. 124) adverte para os cuidados que devemos tomar ao utilizarmos o conceito de identidade, pois trata-se de “conceito político ligado ao processo de inserção social em sociedades complexas, hierarquizadas e excludentes. O clamor pela identidade, para negá-la, reforçá-la ou construí-la, é parte do confronto de poder na dialética da inclusão/exclusão e sua construção ocorre pela negação ou afirmação de direitos e privilégios”. Portanto, conceito estratégico para a compreensão dos efeitos que os valores e crenças veiculados através de padrões amorosos, sexuais e de paternidade/maternidade podem produzir na subjetividade.

Nessa dialética da inclusão/exclusão a cada forma de exclusão corresponde uma maneira de estar incluído. A luta pela sobrevivência exerce um poder sobre o próprio sujeito, conduzindo-o em seu itinerário aplacador. Em seu movimento, deixa-se envolver em uma rede de solidariedade quase invisível. Insólita, justa e injusta, ilógica, auto-sustentável. Joy se solidariza com Valdirene.

Manter-se conectado com a própria vida e, ao mesmo tempo, inserido numa cultura e num modo de viver (que constitui o cerne do conceito de enraizamento proposto por Simone Weil), é, ao mesmo tempo, uma das necessidades mais importantes da alma humana e uma das mais difíceis de definir e garantir. “O ser humano tem uma raiz por sua participação real, ativa e natural na existência de uma coletividade que conserva vivos certos tesouros do passado e certos pressentimentos do futuro” (BOSI, 2003).

Entre as formas encontradas por nossos jovens em sua busca por uma forma de inserção social está o enraizamento através da consolidação de uma família. Família que cunha um pertencimento, uma continuidade e uma história. Expressão de necessidade ou desejo, intenção ou desatenção.

Ser filho, filha, pai e mãe são condições que derivam em direitos e obrigações. Algumas vezes assumimos obrigações para que nossos filhos tenham direitos garantidos. Algumas vezes estes mesmos direitos não nos foram garantidos enquanto filhos. Algumas vezes deixamos de assumir obrigações e nossos filhos deixam de ter direitos garantidos.

Segundo WEIL, no processo de enraizamento a obrigação social ultrapassa a noção de direito, e irá determinar a maneira como o direito será exercido, dando-lhe uma significação nas relações entre os indivíduos. “A noção de obrigação ultrapassa a noção de direito, que lhe é subordinada e relativa. Um direito não é eficaz por si próprio, mas somente pela obrigação à qual corresponde; a realização efetiva de um direito provém não daquele que o possui, mas dos outros homens que se reconhecem obrigados a alguma coisa para com ele. Uma obrigação não reconhecida por outrem não perde nada da plenitude de seu ser. Um direito que não é reconhecido por ninguém não é grande coisa” (WEIL, 2001, p.7).

Pergunto o que podemos fazer para apoiar a diretora da creche, pois ela foi notificada de que o terreno será desapropriado para a passagem de uma rua e está muito triste. Carol (12 anos) está muito brava. Diz que não fará nada, pois estão desapropriando os barracos de todo mundo na favela e ninguém está se reunindo, ninguém vai fazer nada. Na creche a toda hora tem reunião, está cheio de gente importante para ajudar. E ela, que nasceu lá na favela, sua avó veio criança para lá, sua mãe nasceu lá, suas tias e primas moram lá: perderá tudo. Não consegue imaginar como vai ser sua vida depois.

Uma a uma as crianças foram se colocando, falando de seu desconhecimento quanto a seu destino próximo. Algumas irão para a Bahia, outras para a periferia. Muitas não sabem para onde irão. A prefeitura não está dando as garantias previstas por lei às famílias desalojadas.

A favela do Buraco Quente, ou Vila Edith, está sendo re-apropriada pela prefeitura para a passagem da ponte da Avenida Águas Espraiadas sobre o Rio Pinheiros. As famílias estão sendo desalojadas. É o Ó do Borogodó.

Embora a favela possa parecer um lugar muito ruim para se morar, às vezes abriga diversas gerações de uma mesma família, agregando um valor histórico e mítico, contendo a lembrança e a força espiritual dos que já se foram. Passa de um lugar para se morar a um lugar de vida. Lugar onde se desenrolam contratos sociais que vão tecendo valores, tradições, padrões de solidariedade. Este processo acaba formando um ninho, ou um capão, como diriam os índios. Uma cesta. Lugar que delimita e acolhe. Continente.

Assim, passa a haver um pertencimento pleno de valor, a proximidade passa a ser uma força de vida. Essa perda põe em risco os sujeitos: uma força de morte.

A diretora da creche conseguiu proteger o terreno e garantir a continuidade do trabalho inclusivo que vêm realizando há vinte e cinco anos. As famílias têm prazo definido para deixar suas casas.

O desenraizamento, como nos alerta José de Souza Martins (MARTINS, 1997), constitui historicamente um dos fatores de gestação da civilização moderna baseada na igualdade jurídica entre as pessoas, na cidadania e no direito. É uma regra estruturante, pois todos os pertencentes a essa sociedade já foram desenraizados e excluídos de diferentes modos ou em diferentes momentos. Continuamente são recriadas novas modalidades de exclusão juntamente com novos mecanismos de reintegração desses excluídos. Aquilo a que se chama de “modernidade” generalizou as experiências da transplantação, do exílio e do desenraizamento, acentuando a violência.

Se cada pessoa só pode ser igual a si mesma na relação com seus semelhantes, o que ocorre com a identidade quando já não é possível reconhecer as semelhanças? Quando a quebra de vínculos é a regra, quando as referências para a consolidação da identidade são reiteradamente destituídas? De que forma estas experiências contribuem para a concepção de idéias como casal, maternidade, paternidade, família? Qual a conseqüência para nossos jovens dos processos de desenraizamento que os tornam despossuídos de estudo, formação profissional, emprego e vínculos de apego seguros?

Quando as conseqüências sobre a identidade esvaziam o sujeito ele já não pode se ver valorizado aos próprios olhos ou aos olhos de outrem. O projeto de constituição de um casal amoroso se torna irreal e falacioso, destinado ao fracasso. Uma gravidez pode ser uma entrada, forma de inclusão e vínculo de apego garantido na tentativa de dar sentido a uma existência que já perdeu seu lastro e seu espelho.

Maria Inês Assumpção Fernandes (FERNANDES 2004b), nos oferece a metáfora da “cidade destruída” para pensar sobre os efeitos da perda das marcas identificatórias que acompanha os processos de desenraizamento. Marcas que garantiriam o laço social dos sujeitos entre si, com as instituições e nas famílias. Sua perda acarreta uma percepção do contexto social como incoerente, incompreensível e sem garantias. As regras que governam a interdependência grupal não podem mais ser reconhecidas. As produções culturais, as maneiras próprias de viver, de morar e de pensar que outrora se apoiavam nessas regras, fragmentam-se. Segundo a autora, deixar cair em ruínas os valores, as marcas, os traços quase sempre invisíveis deixados pelas esquinas, nos telhados, nos cantos perdidos de uma cidade é, do ponto de vista psíquico, destruir os pactos, os contratos, as alianças aí apoiados que permitem, ao lado dos enunciados fundamentais próprios a um conjunto humano, a construção das identidades e dos sofrimentos da identidade; a construção dos múltiplos sentidos nascidos das inúmeras histórias. Estranhas, diversas, vividas.

Os vínculos de lealdade a uma história e a um legado vão se desfazendo, dando lugar a uma existência errante. Onde apoiar o vivido em busca de uma construção de sentido que não seja efêmera, instantânea, mas que resista no tempo? Como manter viva a memória mítica que une o presente ao passado apontando um futuro? (GOMES, 2000).

Os efeitos de tal processo de subjetivação se expressam pela ansiedade de não se estar à altura, de enganar-se, de não ser bem sucedido, de não ser suficientemente criativo, de não reconhecer o que se faz numa sociedade que espera a constituição de indivíduos, a um só tempo, conformados, adaptáveis e inovadores.

Como não desistir de tudo? Como manter-se na batalha, enviar currículos, participar de entrevistas, acordar cedo, e sempre se sentindo culpado por não conseguir? Para quê continuar tentando? Se alimentar do quê? Acordar com que perspectiva? Que indulgência esperar de quem se ama? A dúvida recai agora sobre o próprio corpo, amputado, sem remédio. Para não se culpar é melhor tornar-se inerte. É o negativo da lei de Lavoisier, que rege a natureza: tudo se perde, nada se transforma.

A linguagem para acolher a subjetividade que assim se expressa precisa sair do campo do certo e errado, do dever, da cobrança e da exigência. É preciso inventar um jeito de estar junto sem responder de forma ansiosa a demandas ansiosas, sem achar que a solução tem que ser imediata e sem exigir uma constância, uma permanência. Inventar um tempo ao longo do tempo que acolha no momento do encontro com um convite que permita a inscrição da criatividade através do gesto. Os espaços devem conter o lúdico e o artístico, de modo que qualquer coisa que se faça possa ser qualificada como gesto criativo do ser que assim se expressa. E, como uma história das mil e uma noites, cada encontro deve conter uma história com começo, meio e fim, e deixar no ar o desejo de que novas histórias venham a ser compartilhadas.

Mas não deve haver pressa em nossa urgência. Estejamos cientes de que, para mudar uma atitude, o homem precisa mudar o que sente. E a mudança do sentimento está atrelada à possibilidade de refletir e mudar o olhar que temos para nossas dores. Isso exige que estejamos juntos tempo suficiente para que se desenvolvam vínculos de confiança mútua que permitam a vivência de novas histórias e a impressão de marcas identitárias que dêem novo sentido ao sujeito que se expressa. Novas narrativas poderão, então, se apoiar sobre novas crenças. Talvez, estas novas narrativas possam conter o tempo do “era uma vez”, tempo sagrado da herança mítica, e o tempo do “viveram felizes para sempre”, marca da esperança que se projeta no futuro.

Mais que propor uma solução nos resta aceitar o desafio de permanecer atentos e delicados.

 

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[1] Trata-se do Projeto Quixote, que se organiza em torno de dois setores de atuação: 1) assistência, com o objetivo de oferecer um circuito de sociabilidade alternativo à rua no qual a droga perca importância e novas oportunidades sejam construídas em torno da saúde global e da educação; e 2) desenvolvimento de Projetos Sociais e Políticas Públicas para a Infância e Juventude, com três áreas de abrangência: ensino, pesquisa e consultorias. Entre as pesquisas realizadas destacam-se a “Cartografia de uma Rede: reflexões sobre um mapeamento da circulação de crianças e adolescentes em situação de rua na cidade de São Paulo (LESCHER et alli, 1998) e “Crianças em situação de risco social: limites e necessidades da atuação do profissional de saúde” (LESCHER et alli, 2004).

[2] ABRAMO, H. W., BRANCO, P.P.M. – Retratos da juventude brasileira: análises de uma pesquisa nacional. São Paulo, Editora Fundação Perseu Abramo, 2005. Para ver os resultados da pesquisa na íntegra, ver www.projetojuventude.org.br

[3] Chico Buarque, A Cidade Ideal, in Os Saltimbancos.

[4] O abandono de crianças e a adoção são realidade em nosso país desde a colonização. Só para dar um exemplo, em 1850 15% dos bebês nascidos na cidade de São Paulo eram abandonados nas ruas. (Etnodemografia da criança abandonada na História do Brasil: séculos 18 e 19).

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