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01 Setembro 2003

HISTÓRIAS ENCANTADAS

Publicado em Artigos
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Denise Gomes

Autor: Denise Gomes - Regional: APTF
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Publicado em: 01-Set-2003 

Vou lhes contar uma das mais belas histórias das quais tomei parte em toda a minha vida.

Certa vez, fui encarregada pelos mais elevados poderes do reino Sapientiae de encontrar e observar famílias que tivessem o hábito de conversar com os Deuses.

Eu teria que descobrir como fazem para conversar com os Deuses, como aprenderam a entabular estas conversas e quais as mensagens que os Deuses lhes enviam.

             Saí pelo mundo em busca de tais famílias. Encontrei muitos tipos diferentes de famílias com esta divina habilidade. Havia famílias que de vez em quando faziam festas para os Deuses. Havia famílias em que apenas um ou dois de seus membros conversavam com os Deuses. E havia famílias em que todos conversavam com os Deuses o tempo todo, ensinando esta habilidade às crianças desde pequenas. A história que vou lhes contar se passou com uma destas famílias.

O reino do Roçado.

Tudo começou há milhares e milhares de anos, num reino muito distante chamado Roçado. Era um reino muito árido, em que fazia muito calor e muito frio. Havia muito pouca comida e todos trabalhavam a terra de sol a sol para produzir o alimento necessário. Desde pequenas as crianças aprendiam este ofício, que era considerado mais nobre do que o aprendizado das letras e dos números. Assim, as boas famílias tiravam seus filhos da escola e os ensinavam desde cedo a arte do roçado.

Mas havia um feitiço que caía sobre as crianças que aprendiam esta arte. Os adultos passavam a vê-las não mais como crianças, mas sim como adultas, e elas não podiam mais brincar, sob a pena de passarem pelo ritual da bruxaria, em que eram despidas, molhadas e espancadas. Eram crianças de corpo e alma, mas o feitiço ia matando sua alma aos poucos.

As boas famílias não tinham o hábito de falar com os Deuses, mas os Deuses olhavam por elas.

Um dia nasceu um menino a quem foi dado o nome de Divino. Ele era o primogênito e era uma criança especial. Em muito pouco tempo aprendeu a juntar as letras e entender a relação entre os números. Tão logo aprendeu, foi levado para o aprendizado da arte do roçado. Ele não gostava de estar lá, queria ir para a escola e aprender mais sobre as letras e os números. Mas ele era um filho obediente, uma criança que poucas vezes precisou passar pelo ritual da bruxaria, pois se comportava quase como um adulto. Ele não deixou de ter alma de criança. Um dia, em um de nossos encontros, ele contou a seus filhos uma história que se passou com ele:

DIVINO: “História dos meus cinco a seis anos, mais ou menos. Essa história aconteceu no estado do Paraná, quando eu morava num sítio. Trabalhava no sítio, na lavoura de café, feijão, arroz e etc. Meu pai trabalhava sozinho capinando a terra preparando o solo para o plantio. Mas esta história aconteceu no tempo da colheita do algodão, quando o meu pai levava a minha mãe, eu e o meu irmão, que era um ano menor que eu. Passava o dia todo brincando, mas, um belo dia, encontrei no meio da roça uma árvore seca cheia de furos ou degraus provocados pelo fogo, quando foi queimada a roça que estava sendo preparada para o plantio. Esta árvore era reclinada na mesma posição quando se coloca uma escada.

Na minha inocência de criança, fui subindo furo após furo, ou degrau após degrau. Quando me dei conta eu já estava na ponta da árvore.

Meu pai, trabalhando, não percebeu nada, só quando gritei: “SOCORRO”.

Aí, ele deixou o trabalho, veio para o pé da árvore e pediu para que eu descesse, mas eu não conseguia descer de lá de cima. Ele me ameaçou, dizendo que iria buscar o machado para cortar a árvore. Se eu já estava com medo, agora aumentou mais ainda, de cair juntamente com a árvore. Meu pai, depois de muitos gritos, apelando para eu descer, conseguiu me ver em terra.

Hoje acredito que meu pai passou muito medo, também, de que eu caísse. De que eu caísse e ficasse gravemente ferido ou até morresse, porque a altura era enorme. Hoje, depois de 37 anos, estou contando essa história.

Acredite: desta vez não apanhei, mas o susto foi pior do que uma surra.”

Divino guardava as marcas dos rituais de bruxaria que se impunham sobre seu corpo, mas sofria mais com o sofrimento dos irmãos mais novos, que não sabiam fingir de adultos e eram freqüentemente castigados. Viu a alma de seus irmãos minguando pouco a pouco.

Ainda jovem, com 17 anos, deixou aquele reino para ir em busca de uma vida em que a alma de sua criança pudesse manter-se viva. Não sabia em que direção seguir nem que mundo escolher. Viajou muito, experimentou muitas formas de vida, até que avistou um mundo todo iluminado, em que se ouviam os cânticos que vinham dos céus, em que as mulheres eram simples e usavam saias, em que os homens andavam devagar e carregavam um livro nas mãos, em que as pessoas andavam sempre acompanhadas e sempre se reuniam para estudar e contar histórias. Ele, que sempre fora tão solitário em sua busca, quis ver de perto.

Descobriu que para entrar naquele reino teria que deixar muitas das coisas que trazia em sua bagagem para trás. E teria que conhecer um outro tempo, pois o sétimo dia era ofertado aos Deuses. Teria que mudar o modo de se vestir, de falar e até de se alimentar. Era um reino onde o Rei era um Deus muito poderoso, muito exigente, mas que prometia a vida da alma de sua criança, e ele correu para dentro daquele reino, sem duvidar um só momento. 

O reino das 5 Quedas 

Há milhares e milhares de anos, do outro lado do mundo, também existia um reino muito distante em que os pais tinham tomar muito cuidado para proteger seus filhos, pois havia um feiticeiro chamado Epidêmio que espalhava doenças terríveis pela terra, e poucos tinham acesso aos antídotos que poderiam por fim às doenças.

Para conseguir o antídoto era necessário possuir um saco de moedas de ouro, viajar a cavalo muitas e muitas léguas até chegar no grande castelo das poções mágicas e então, se o feitiço ainda não tivesse sido fatal, encontrar o antídoto para a criança afetada.

Poucas famílias possuíam sacos com moedas de ouro. Mas, mesmo as que possuíam, muitas vezes não podiam realizar a viagem, pois tinham muitos filhos e uma terra para cuidar, ou não alimentariam as crianças e elas ficariam mais expostas aos feitiços de Epidêmio.

Neste reino havia uma família em que os pais eram muito zelosos com seus filhos. Eles gostavam muito de crianças e tiveram a graça de conceber 7 crianças. Os quatro mais velhos eram meninos. As três menores eram meninas. Tanto o pai quanto a mãe trabalhavam para dar o melhor para cada um de seus filhos. A mãe era exímia cozinheira e cuidava da casa com tanto carinho que a casa estava sempre brilhando. O pai não via a hora de chegar em casa, reunir os filhos e contar as histórias de sua infância e de sua juventude. Eram suas histórias de cavalaria. Os filhos amavam aqueles pais.

Epidêmio era muito amargurado, pois era muito solitário. Ele vivia sempre isolado, pois todos o temiam. Então, ele nunca conseguiu encontrar uma moça que quisesse namorar ou casar com ele. Ele se tornou invejoso. Sua maior inveja recaía sobre as famílias amorosas e numerosas, em que reinava harmonia e alegria.

Sua cólera foi tanta ao conhecer aquela família dos sete filhos que ele realizou um dos feitiços mais amaldiçoados de que foi capaz em toda a sua vida. Um a um ele fez com que os meninos sofressem quedas das quais não pudessem se recuperar, provocando a morte de todos os homens da família. O último a falecer foi o pai, que enterrou seus 4 filhos e adoeceu de tanta tristeza: seu coração foi ficando fraco, foi batendo cada vez mais devagar até que ele não mais resistiu.

As mulheres sobreviveram, embora a alma daquela mãe e esposa tenha sido roubada pelo feiticeiro.

Numa tentativa enlouquecida para salvar a alma de sua mãe, a irmã mais velha correu à casa de Epidêmio e lhe propôs uma troca. Ela faria qualquer coisa para manter viva a alma de sua mãe. 

Epidêmio só conhecia um tipo de feitiço: o adoecimento. Disse à menina, que tinha apenas 11 anos, que só existia uma forma de manter viva a alma de sua mãe: se a menina adoecesse, sua mãe - que era tão amorosa - faria tudo que estivesse ao seu alcance para tentar salvá-la, e isso manteria sua alma viva.

A febre reumática e a asma deram origem a um problema grave no coração da menina, danificando a válvula mitral. Aos 21 anos ela iria sofrer sua primeira cirurgia, mas foi acometida por um medo descomunal, que a fazia chorar noite e dia, sem cessar.

Foi então que ela recebeu um convite para deixar aquele reino em que havia tanta dor e tanta morte e ingressar num reino de vida e ressurreição. Bastava dizer umas palavras mágicas que seu medo e sua dor seriam suspensos. Nina disse a si mesma: “Vou dizer essas palavras mágicas com toda a minha fé”.

Ao pronunciar as palavras mágicas seu medo e sua dor desapareceram e ela experimentou pela primeira vez em muito tempo uma sensação de tranqüilidade e confiança. Quando olhou em volta, já estava vivendo no reino prometido.

Nina também contou a seus filhos uma história em nossos encontros. Parecia sentir que Epidêmio ainda rondava sua família, ameaçando com as quedas que provocava. Isso aconteceu quando ela ainda vivia no reino das 5 Quedas.

“Na casa dos meus pais, havia duas árvores enormes: uma mangueira e um abacateiro, onde brincávamos de elevador. Uma corda era transpassada por um galho bem forte e, numa das pontas, amarrávamos uma tábua onde colocávamos nossas pernas e meu irmão nos puxava para cima. Ele soltava a corda devagar para descer. Quando era a vez dele tinha que ser nós duas para puxar ele para cima. Às vezes ele me subia, então saía e eu ficava lá em cima. Então, ele me descia e ele subia minha irmã, Marli, e ela descia lá de cima e eu subia na corda e ele descia e depois ela. Era muito divertido.

Só a Janete não brincava, por ser muito pequena. E essa era a nossa brincadeira preferida. Então, um dia em que o meu irmão não estava mais entre nós, pois ele havia falecido, eu e a Marli tentávamos brincar, mas éramos muito fracas para puxar uma a outra, mas, mesmo assim, tentávamos brincar, nós duas. Então, ela subiu na tábua e eu, com muito esforço, consegui puxá-la quase até lá em cima, só que, não agüentando o peso, a corda escapou e ela caiu em cima do braço. Eu até tentei pegá-la, mas não consegui. Resultado: ela começou a chorar desesperadamente, dizendo estar com dor no braço. E eu, com medo de apanhar, tratei logo de choramingar, também. Minha mãe logo apareceu, gritando apavorada. Claro, vendo as duas em um choro só. Tratou logo de nos levar ao pronto-socorro. Depois de examinadas, o médico deu o diagnóstico: eu não tinha nada e minha irmã estava com o braço quebrado. Mas claro, levei um belo sermão, que nunca esqueci. De vez em quando eu repetia aos meninos “mentira tem perna curta”. Eu menti para não apanhar, esquecendo que o médico iria ver que não tinha nada de errado comigo, que não tinha nada quebrado, afinal, quem caiu foi a Marli.”

No reino do Advento.

O reino do Advento é governado pelos Deuses. Há um deus soberano chamado Jesus, mais poderoso e mais importante do que todos os outros. A ele só se iguala em poder seu rival Satanás. Este feiticeiro encanta os justos tornando-os ímpios e pecadores através de incansáveis seduções. Ele oferece prazeres em troca da morte da alma.

Jesus, ao contrário, oferece vida, vida em abundância, ressurreição através da qual ele iguala morte a vida. Para ele “A morte não é um fim. É o começo de uma nova vida e todo aquele que, mesmo tendo pecado, tenha se arrependido, se pedir perdão e crer em Jesus, mesmo que morra irá ressuscitar.”

Quando vieram para o reino do Advento, Divino e Nina achavam que os feitiços ficariam para trás, e que dali para frente tudo seria diferente.

Claro que estou contando todas essas histórias para chegar exatamente aqui: no final feliz. Divino conhece Nina, se apaixonam um pelo outro e vivem felizes para sempre.

Mas, antes de toda essa felicidade, muitas provas ainda os aguardavam...

Nina descobriu-se grávida depois de descobrir que estava com rubéola. Ela não podia imaginar que Epidêmio estenderia o feitiço aos seus próprios filhos. Durante toda a gravidez temeu o pior, que seu filho não pudesse ouvir os cânticos celestes e a voz de Deus. No final da gravidez ela teve início de eclampsia, colocando em risco mãe e filho e o bebê nasceu de oito meses. Sofreu durante muitos anos de infecções repetidas nos ouvidos, teve que fazer uma cirurgia, mas ouve bem e se comunica como poucos.

Divino segurava na mão de Deus.

O segundo filho nasceu de 7 meses, sob início de eclampsia, mas não teve doença no corpo. 

Sua doença era na alma. Ele não conseguia ouvir os cânticos e a voz de Deus, ele era um rebelde. Parecia enfeitiçado por Satanás. No reino do Advento os castigos corporais simbolizam a expiação do pecado, salvando do feitiço da morte da alma de criança, ao contrário do que ocorria no reino do Roçado. Divino se via numa condição insuportável, pois castigava o filho ao modo como fora castigado. Aqueles mesmos castigos que mataram a alma de criança de seus irmãos e irmãs agora ele usava para tentar salvar a alma de criança de seu filho. Era ele quem enfeitiçava o próprio filho.

“Tudo o que eu queria era estar no lugar dele”, dizia Divino. 

Nina, por seu lado, se achava a pior mãe do mundo. Sua cena temida, desde pequena, era não poder garantir a vida de seus filhos, como ocorrera com seus irmãos e seu pai. Se a alma de seu filho não fosse salva, ele não poderia pertencer ao reino do advento, pois sua morte não seria convertida em vida. O salário do pecado é a morte.

Quando encontrei esta família eles estavam sofrendo muito. Eles, que vieram para o reino do Advento para fugir da morte e da morte da alma, agora viam seu filho correndo perigo sem saber o que fazer.

Em nossos encontros, Divino, Nina e seus dois meninos criaram seus próprios feitiços para estancar de vez o efeito dos feitiços que haviam açoitado as gerações anteriores. 

Divino contou histórias de suas histórias e foi revigorando sua alma de criança, anteriormente tão desvitalizada. Entrando em contato com sua criança encontrou o antídoto contra o feitiço dos castigos corporais e salvou seu filho do feitiço do roçado.

Nina também contou histórias de suas histórias e encontrou um modo de desfazer o pacto de morte que havia feito com Epidêmio. A partir de então, começou a desejar e a lutar para que seus desejos se tornassem realidade. Sua alegria se renovava a cada dia.

Os meninos inventaram seus próprios feitiços, ensinando infância novamente aos pais através dos convites para participarem de brincadeiras que eles nunca haviam podido experimentar por causa dos feitiços do mundo do roçado e do mundo das 5 quedas.

Divino ficava maravilhado de ver seus meninos freqüentando a escola e aprendendo as letras e os números.

Nina não podia se conter de alegria ao ver todos fora de perigo. Sua saúde se estabilizou e deixou de ser uma ameaça constante. 

E as crianças não precisavam mais usar da rebeldia para manter sua mãe ligada à vida.

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