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09 Setembro 2006

NAVEGANTES

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Denise Gomes

Autor: Denise Gomes - Regional: APTF
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Publicado em: 01-Set-2006

“Depois, mal o sol acabou de nascer, o homem e a mulher foram pintar na proa do barco de um lado e do outro, em letras brancas, o nome que ainda faltava dar à caravela. Pela hora do meio dia, com a maré, a ilha desconhecida fez-se, enfim, ao mar, à procura de si mesma”.

(Saramago).
...

A essa altura, já a lua alta, quatro homens se aproximaram do barco e, sem cerimônias, atravessaram a prancha do cais.

- És tu o homem que recrutava marinheiros para uma viagem em busca da ilha desconhecida?

- Sou. E vós? Quem sois?

- Tua tripulação.

Houve gritos de entusiasmo, apertaram-se as mãos, bateram-se nos ombros, trocaram nomes e origens. Os homens trouxeram vinho da bodega de onde vinham.

Depois da tormenta, já na calmaria da intimidade que deitou sobre eles, cada um daqueles homens contou suas crenças mais profundas sobre homens, mulheres, barcos, oceanos e ilhas desconhecidas.

Devia ser o resplendor da lua, que somava-se ao vinho e inebriava os humores.

- Meus caros, estou certo que há de haver não uma, mas tantas ilhas desconhecidas quanto súditos desse reino. Partirei convosco. Mas, conto, desde já, minhas inquietações.

Quais são as bifurcações que enfrentaremos ao longo do tempo?

Devemos estar atentos, pois nosso trajeto será irreversível. Para conhecermos o que há de único nessa situação não basta observar os tijolos, seus detalhes. É necessário observar globalmente, a construção como um todo.

Qual será o destino dessa viagem?

Quem irá falar em seguida a mim?

Estaremos de acordo, por vezes. Outras vezes, haverá conflito.

Se um de nós desistir da travessia, o que se passará com a ilha desconhecida?

A ilha desconhecida será atingida?

Se nossa jornada durar mais tempo do que o esperado, como iremos nos alimentar?

A propósito: quanto tempo esperamos levar até alcançar a ilha desconhecida? É necessário precisar este tempo, ou toda nossa programação não valerá de nada.

Quem irá proteger o homem do leme? Se o homem do leme vier a falecer, haverá alguém para nos guiar?

Em que direção iremos seguir?

Nesse momento, o homem barrigudo de nariz afilado tomou a palavra.

O senhor me conforta deveras com suas inquietações, revelando-se um bom observador. Eu também não poderia partir para uma viagem à ilha desconhecida sem saber a que noção de tempo nos referimos ou, sem refletir, ao menos, sobre o campo dos possíveis nessa nossa trajetória.

Afinal, com certeza, teremos que contar com o azar e o acaso. Cada detalhe poderá significar a diferença que trai o destino. Um mínimo elemento, aparentemente anódino, poderá definir nossa travessia como fragorosa. Um mínimo grau, nos 360º, poderá nos conduzir ao encontro ou nos constranger ao desencontro. Nenhuma bússola, sob a tormenta, poderá indicar com absoluta precisão a direção a tomar.

Vaguemos vagarosos, espreitemos, fiquemos à deriva, sigamos com o vento. Eis o meio que me parece mais seguro para navegar em direção ao que é desconhecido de nós mesmos.

Sou grato ao senhor por nos livrar de um estranho paradoxo: tentar traçar, de antemão, a rota ao desconhecido, contando não apenas com variáveis estáveis e previsíveis do clima e dos ventos, como, também, com nossa intuição como bússola e mapa.

Nossos mapas, no entanto, só podem nos conduzir às ilhas já visitadas e, se nosso programa oficial é nos conduzirmos a uma ilha desconhecida, o acaso e os imprevistos são nossos melhores aliados.

Não percamos de vista que a locomoção dessa nau, caravela nomeada com a designação do destino (ilha desconhecida) dependerá de nossos esforços e de nossa natureza. Estejamos atentos a cada um de nossos próprios gestos e opiniões, observando sua utilidade para a totalidade de cada situação.

Outro homem, que até então não se pronunciara, faz seu tributo.

­ Estou gostando de nossa conversa. O senhor me fez lembrar de um homem franzino, de língua inglesa, que conheci numa exposição de telas. Seu nome era William Blake. Versando sobre o que vemos e como vemos ele obsequiou que não vemos “com” os olhos, mas, “através” deles. Receio ser esta a natureza a que se refere o francês.

- Judeu Árabe.

-  desculpe, já nos revelaste seu nomadismo. Das Arábias à África e, de lá, finalmente, ao derradeiro mundo. Mas, o sotaque me fez distorcer o que eu já sabia.

É por isso que nos encontramos diante de um dilema ético. Cada uma de nossas visões, cada palavra proferida – até mesmo o modo como são proferidas – nos afetam de modo inusitado. Observem o efeito de minhas palavras sobre vocês enquanto acompanham minhas idéias. Se estaremos no oceano do inesperado, estaremos aptos a reconhecer o realmente desconhecido? Ou essa viagem não diz respeito ao Real?

Se uma névoa nos impedir de ver o que não vemos, tomaremos a aparência pela coisa em si e nos desviaremos uma vez mais de nosso intento, desconhecendo até mesmo o que desconhecemos.

Não veremos que não vemos, duplamente cegos.

Ora, senhores, não somos professores dos mares e, sim, seus aprendizes.

Qual é a lição das névoas?

Para tornar conhecida a ilha desconhecida é preciso tornar conhecido o caminho que conduz a esse desconhecido.

- Brilhante! Brilhante! Se juntarmos a isso o fato de que lhes falei, do acaso e dos imprevistos como fatores determinantes, concluímos que o caminho para a ilha desconhecida só poderá ser traçado uma única vez e que, por mais que descrevamos o caminho percorrido, ele jamais poderá ser traçado novamente da maneira como o fizermos.

- Caríssimos, vós demonstreis com singeleza a teoria da irreversibilidade do tempo.

- E isso não é tudo: acabamos de aprender que para conhecermos a ilha desconhecida (coisa) precisamos, na verdade, conhecer o processo que nos conduz a ela.

O Homem do Leme se pronuncia pela primeira vez:

- Não sei se a Realeza ficaria satisfeita com isso. Não sei se acharia que isso é Real.

- Agradeço-vos, homem do leme, por se deixar afetar por nossa conversa. Peço-vos que sejais para mim como Glauco ofereceu-se a Sócrates. Agradeço-vos, ainda, por vossa fundamental contribuição: afinal, o que iremos oferecer ao Rei com nosso retorno?

Se voltarmos com a notícia de que a ilha desconhecida só pode ser atingida uma única vez e que o caminho por nós percorrido é feito de acaso e mudança, nossa Realeza na certa irá nos comparar aos verdadeiros navegadores e geógrafos do reino, que riscam no papel com precisão o que há para se conhecer. Nossa Realiza não poderá compreender como pudemos visitar o desconhecido e, mesmo assim, sucumbir ao desconhecimento. Poderá, até, nos expulsar de seu Reino.

Homem do Leme - Na certa ele o faria, mas, temo que já não precisaríamos estar neste reino...

- Vais além de Glauco, que se limitava a confirmar. Tu desafias meu pensamento...

Tens toda razão: nosso Rei não enxerga onde não vemos. Enclausurado no palácio, apenas pode ver as sombras dos passos de seus súditos. Creio que ele nos tomaria como lunáticos e nos enviaria ao manicômio dizendo que estamos “inventando coisas”.

Homem do Leme - Mas, estamos de fato inventando coisas!

- Sim. Assim como todos os verdadeiros” desbravadores dos mares!

É a linguagem que cria o mundo, meu Glauco, não pense que há descobrimento possível. O encobrimento é a pele do mundo.

O que dizemos sobre o mundo é que o faz nascer. As coisas nascem do nome que damos à maneira como somos tocados por elas.

- Que bonito...

(fez-se um pequeno silêncio... alguns suspiraram)

- Vocês viram o que acaba de acontecer?

Bastou que o homem do leme nos reunisse em função da busca pela ilha desconhecida para que conhecêssemos mais, muito mais, acerca do que desconhecemos sobre nós mesmo e sobre o nosso lugar no mundo.

O homem franzino, de óculos redondos, bigode e cabelos grisalhos que se mantivera calado até então, enfim, se pronunciou.

- A colaboração é o que nos distingue, meus caros. Nessa empreitada, somos movidos pela emoção de sonhar juntos. Para adentrar a “Ilha Desconhecida” são necessários a confiança e o respeito mútuo. Nossa relação é amorosa. Fôssemos como os chimpanzés e já estaríamos organizados de forma política: alguns dominando, outros se submetendo.

Ao contrário disso, coordenamos nossa reflexão e nossas ações de maneira consensual, legitimando a cada um em sua própria visão de mundo.

Me orgulho de pertencer a uma tripulação que admite a existência de ilhas desconhecidas e admite a multiplicidade de caminhos e descaminhos que nos levarão ao destino.

Se me permites, senhor, gostaria de parabenizá-lo pelo ensaio sobre a cegueira dupla, “não ver que não vemos” e falar, então, da visão.

Minha pergunta é: o que nós vemos quando vemos?

[O sotaque dele denunciava uma Espanha distante, além mar, o que indicava ser ele, também, um grande e experiente homem de travessias].

Muitos filósofos já afirmaram como Castanheda que “só vemos aquilo que podemos explicar”.

A aparição do mundo para nós ocorre a partir de nossas descrições e explicações sobre ele. Até que isso ocorra, todas as ilhas permanecem desconhecidas.

Só podemos explicar o encontro da ilha desconhecida por meio do encontro da ilha desconhecida. Somos nós que criamos as condições para irmos de encontro a ela. Também somos nós que criamos as descrições e explicações a partir de nossa experiência.

É assim que produzimos a nós mesmos.

- Excelentíssimo! Bravo! Depois de ouvi-lo vejo que tudo à minha volta nasce e morre comigo. Claro, conheceremos o caminho para a ilha desconhecida durante o caminho. Conheceremos a ilha desconhecida nos nomes que dermos ao que ela nos trouxer. Ela será conhecida como a Ilha que nos ensinou que tudo é desconhecido até que você empenhe seu medo e sua coragem, seu tempo e seu amor, na tentativa de atravessar o oceano que te afasta daquilo que você desconhece para, no fim, encontrar a si mesmo.

A lua ia alta e silenciosa, deslumbrada com o brilho que vinha daquela caravela.

Os homens se recolheram a seus corpos e a mulher da limpeza trouxe-lhes redes, chá e bolo, que fizera dos mantimentos que eles trouxeram em sua bagagem.

Ela pensou que, talvez, nem fosse necessário encontrar a ilha desconhecida, se há tanta coisa desconhecida ao nosso redor.

Estava grata por aquele dia. Cada um daqueles homens era uma ilha desconhecida para ela até então.

E pensou:

- Antes mesmo de zarpar, em um só dia, conheci 6 ilhas desconhecidas. O homem do leme, os quatro tripulantes e uma ilha que morava dentro de mim e eu nem imaginava. Aposto que amanhã cada um de nós revelará novas ilhas desconhecidas.

Bastou estar à procura para encontrar.

Mas, será mesmo que existem ilhas desconhecidas, ou tudo isso não passa de puro devaneio?

Eu caçadora de mim.

Denise Mendes Gomes.

 

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