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02 Setembro 2013

DAS ANTIGAS ÀS NOVAS FORMAS DE CONJUGALIDADE

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Denise Gomes

Autor: Denise Gomes - Regional: APTF
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Publicado em: 02-Set-2013

Introdução:

As ciências humanas, entre as quais a psicologia social, nos tem alertado para os efeitos de recursividade das práticas sociais que tenta compreender a partir da ancoragem simbólica sobre coisas, relações e pessoas, no estudo das representações sociais e coletivas, das dinâmicas de grupo e do funcionamento institucional, das leis que regem os processos de exclusão/inclusão na sociedade, entre outros temas, apontando a necessidade de situar os problemas coletivos como problemas, acima de tudo, de natureza política com suas raízes históricas.

 

A instituição família.

A família adquire uma significação dinâmica para a humanidade porque, mediante seu funcionamento, fornece o marco adequado para a definição e conservação das diferenças humanas, dando forma objetiva aos papéis distintivos, porém mutuamente vinculados, do pai, da mãe e do filho, que constituem os papéis básicos em todas as culturas.

Como grupo primário, a família pode ser analisada em três diferentes níveis, exigindo sempre uma abordagem polidimensional:

1)do ponto de vista psicológico ou psicossocial, analisando a conduta do indivíduo em função de seu próprio meio familiar.

2)do ponto de vista da dinâmica do grupo, sociodinâmico, analisando as relações familiares, seus padrões recorrentes e a maneira pela qual lida com suas circunstâncias ao longo do ciclo vital.

3)do ponto de vista institucional, referente aos problemas típicos da estrutura da família nas diversas classes sociais (meio urbano ou rural, contexto histórico, político, econômico).

Família como instituição

O ser humano encontra nas distintas instituições suporte e apoio, um elemento de segurança, de identidade e de inserção social ou pertença (a uma genealogia e a uma história). Do ponto de vista psicológico, a instituição serve de suporte para a manifestação da subjetividade de seus integrantes, através dos processos grupais e institucionais, configurando um conjunto de significados e valores (desejáveis ou indesejáveis, permitidos ou proibidos) através dos indivíduos e dos grupos que a compõem.

A família é uma instituição “que faculta a entrada do homem num universo de valores, criadora de normas particulares e de sistemas de referência (mito ou ideologia) que servem como lei organizadora tanto da vida física quanto da vida mental e social dos indivíduos que dela participam” (ENRIQUEZ, 1989, p.53).

Família e genealogia.

A família é a estrutura social básica que se configura pelo interjogo de papéis diferenciados (pai, mãe e filhos) e é o modelo primário da situação de interação grupal.

Bleger enfatiza a importância da continuidade histórica na constituição do sujeito. Em Psicologia da conduta afirma a falsa antinomia Indivíduo-Sociedade presente na idéia de que o indivíduo é limitado, distorcido ou coagido pela organização social. A organização social é a condição de emergência dos indivíduos. Não se trata, portanto, de saber como os indivíduos isolados tornam-se seres sociais, mas, sim, como de integrantes de uma cultura e pertencentes a uma história de relações intergeracional que nos cunha uma genealogia e uma herança simbólica passamos de seres eminentemente sociais e chegamos a nos constituir em indivíduos.

Família nucelar: modelo hegemônico.

 como surgiu a família nuclear moderna e quais são as características de sua dinâmica que contribuem para que ela tenha se tornado a forma hegemônica de família na modernidade?”.

A família apresenta uma mistura de elementos Históricos.

A família burguesa – nuclear – faculta-nos o quadro mais claro de uma estrutura emocional que podemos observar atuando nos dias de hoje.

A clivagem nas identidades prototípicas do homem e da mulher se fazia sentir em quase todos os aspectos da vida, desenhando um gênero masculino marcadamente distinto do gênero feminino.

No plano da sexualidade, às mulheres se ditava que procurassem atravessar a vida “sem ter sequer consciência das instigações dos sentidos”, os homens dessa classe viviam o sexo divorciado de sentimentos de ternura, requerendo a prostituição e a conquista de mulheres de classe inferior para sua satisfação sexual.

Outra clivagem ocorreu entre o mundo familiar e o mundo do trabalho, que passaram a residir em ambientações distintas. Esta ambiência delimitava contratos sociais distintos, criando um contexto próprio para as relações íntimas e afetivas, na família, e um contexto para relações contratuais, quase hostil devido à competitividade capitalista.

Ocorre uma terceira clivagem, esta situada nas relações entre a estrutura familiar e a comunidade, incluída a família extensa. O poder dos pais sobre os filhos cresceu consideravelmente na medida em que outras figuras de autoridade na comunidade perderam sua capacidade de intervir nas relações de família.

A ausência de grupos juvenis para disciplinar os adultos se qualquer aspecto da vida familiar saísse dos eixos refletia uma quarta clivagem, esta situada entre as gerações, com uma linha divisória clara entre os direitos e deveres de crianças e adultos. Esta clivagem marcou um ponto de tensão no interior da família, estabelecendo as condições para se inventar a adolescência.

A clivagem entre o mundo privado da família e o público, reduziu a rede social de mulheres e crianças em idade pré-escolar ao núcleo familiar, com a conseqüente perda das funções que uma rede social ampliada pode fornecer. Companhia social, apoio emocional mútuo, troca de informações quanto a questões privadas e públicas, esclarecimento de expectativas, provisão de modelos de papéis sociais e regulação social, estabelecendo uma conexão com as normas tradicionais estabelecidas.

A masturbação infantil também passou a incomodar aos pais, sendo vista com horror e intolerância. A clivagem aqui se instalou entre os prazeres do corpo e o amor parental, sempre atrelado ao absolutismo da autoridade parental.

Como funciona a família hoje e quais são as conversas entre a família tradicional burguesa e a atual família da era da informação?

Hoje em dia já não podemos delimitar campos marcadamente distintos entre os gêneros. Tanto no plano da sexualidade, como no campo do trabalho e da vida social, a mulher e o homem se encontram em posições bastante semelhantes, experimentando oportunidades de desenvolvimento e experimentação social equivalentes. Paralelamente a isso, assistimos o avanço dos relacionamentos de pessoas de mesmo gênero, com conquistas jurídicas importantes atestando o reconhecimento dessas uniões como igualmente válidas às ligações heterossexuais.

O incremento da autonomia acabou sobrepujando a importância dos parceiros. As redes sociais, que foram bastante incrementadas pelo surgimento das amizades e sua importância na vida dos adolescentes se estendendo até a vida adulta e mesmo das famílias, hoje estão ainda mais incrementadas com as redes sociais virtuais.

Com tantas trocas e tantos convites, continua sendo um grande enigma a possibilidade de casar o sexo com sentimentos de ternura. Se durante um certo período o ideal romântico de viver o amor e o sexo de maneira conjugada parecia ter sido alcançado por boa parte dos casais, o número crescente de separações e as pesquisas sobre os padrões de relacionamento nos revelaram que muitos casais sustentavam relações falidas durante anos ou décadas. Por outro lado, a liberdade de viver o sexo de maneira livre apregoada desde a década de 60 do século passado, até hoje é almejada por muitos e vivida de forma explícita ou escondida. Hoje em dia a oferta de conexões e possibilidades é tamanha que se torna cada vez mais comum encontrar pessoas que se recusam a sacrificar a própria liberdade sexual para estabelecer um compromisso amoroso. A noção de individualidade tornou-se tão importante que até mesmo entre casados, a carreira profissional muitas vezes se mantém como o centro da vida das pessoas, ficando os projetos comuns para segundo plano.

O mundo da vida privada é invadido pelo âmbito público, ficando o cuidado das crianças e, muitas vezes, até mesmo sua geração, nas mãos de equipes de especialistas seja da área da saúde, da educação ou do serviço social. A ingerência das instituições na vida das famílias acabou tornando pais e mães dependentes de especialistas para quase todos os aspectos da vida antes privada: cozinhar, costurar, fazer lição de casa, levar e buscar da escola, cuidar de viroses ou pequenas infecções, tudo passou a ser delegado a terceiros, restando aos jovens pais um sentimento de incapacidade diante dos fatos corriqueiros da vida de seus filhos. A supervalorização da informação qualificada amputou os pais e mães de seus saberes milenares.

Nada que o Mr. Google não pudesse resolver facilmente. A tecnologia ao alcance dos dedos em qualquer lugar que você estiver hoje em dia transforma a autonomia das pessoas em algo inigualável e inimaginável em qualquer outro momento histórico. Também diminui consideravelmente as diferenças entre adultos e crianças, estas últimas sendo vistas como privilegiadas porque aprendem a lição das telas digitais antes mesmo de seus primeiros passos. Familiarizadas com esta nova linguagem que toma conta do multiverso que se impões diante de nossos olhos, as crianças são sentidas como as guardiãs dos segredos que apenas os grandes especialistas em tecnologia dominam. Alijados do processo de produção desta nova tecnologia e sem poder compreender seu alcance e suas conseqüências para as relações entre classes, gerações e gêneros, os adultos jovens e maduros se vêem reféns destas novas tecnologias impostas a eles sob o risco de serem cuspidos para fora da nova ordem social.

Já não há prazer no corpo na infância atrelada a jogos e imagens espetaculares manipuláveis pelas pontas dos dedos. Hoje sentimos falta dos tempos em que as crianças tocavam suas próprias genitálias. Já não há calor entre pais e filhos. O antigo amor parental, que vigiava, punia, orientava as pulsões e servia de rédea para os impulsos mais dementes já não orquestra qualquer sonata. Invadidos desde muito cedo pelos valores impostos pelos objetos de consumo áudio-visuais, os filhos desde tenra idade constroem suas idéias a partir dos jargões das notícias populares: Se você me bater vou chamar o conselho tutelar.

Em nossos consultórios observamos cada vez mais o declínio do império conjugal. Os bárbaros estão chegando. Com eles, novas maneiras de organizar a vida em comum e uma enorme fobia do momento a vir. Inédito. Voraz. Incalculável.

Sob a égide de um mundo versado em complexidades, somos lançados para o reino da instabilidade e da intersubjetividade, onde a  auto-organização, o caos e a incerteza são as fontes da transformação.  Imersos no observado como observadores de nós mesmos ao olhar para o mundo, aprendemos as lições da relatividade na construção de realidades parciais e complementares. Desafios imensos para nosso ser formado com olhos cartesianos.

Diante da falta de parâmetros claros a guiar a formação das individualidades e de grupos delimitados para oferecer contornos ao processo identitário, acreditamos que é fundamental em nossa clínica o uso instrumental do diálogo que encara as interseções entre as pessoas como novos espaços que ampliam as possibilidades como uma experiência de fertilização recíproca geradora de uma construção social compartilhada com potencial para permitir um conhecimento relativo dentro de um contexto social datado.

Acreditamos que da ênfase às narrativas de cada participante, das múltiplas vozes envolvidas construindo e reconstruindo significados, podem nascer novos sentidos para a experiência, ampliando mundos e redescobrindo o mistério da fecundação.

Acreditamos que a inclusão das várias vozes presentes permite a articulação das diferentes histórias que compõem as histórias compartilhadas, nos enlaces que vão acontecendo e vão constituindo redes de conversas e gerando coordenações do conhecimento num dado grupo num dado momento. Tudo sempre tão singular, tão único.

Acreditamos na importância de trabalhar com e nos processos, valorizando o que é espontâneo e imprevisto, o que é singular em cada experiência, o que é sempre particular.

Acreditamos que o acontecer humano não está pautado no pensamento moderno da ciência, nas leis gerais, na previsibilidade, nas regularidades ou nas certezas, mas navega no oceano aberto das ambiguidades e dos paradoxos, do incerto e inusitado, na inacabada e delirante nau dos sonhadores.

Acreditamos no lugar do terapeuta como um colaborador, não como um especialista; como um co-construtor de espaços reflexivos de ampliação de realidades. Acreditamos em uma ética relacional horizontal onde todos precisam ser ouvidos, onde todos os envolvidos contribuem com seu valor e sua autoria para o que está sendo compartilhado.

Acreditamos que o processo terapêutico é um encontro humano reflexivo que expande o campo dos possíveis e abre espaço para o novo e o até então impensado.

Acreditamos na auto-referência, que a percepção sempre parte de nós, que nos compomos através de nosso entrelaçamento no mundo: não falamos sobre as coisas ou as pessoas mas, sim, com elas a partir dos movimentos que compõem a nossa história e que o encontro desperta. Acreditamos que a noção de auto-referência nos liberta da busca de verdades absolutas na medida em que inclui a noção de pré-conceito como pré-conhecimento, como tijolos a serem moldados no cimento dos encontros, permitindo ao terapeuta integrar sua própria pessoa como instrumento de trabalho.

Acreditamos na superação das verdades estabelecidas e das buscas universais, enfatizando a importância particular do encontro entre as pessoas como gerador de fertilidade na composição de momentos sempre únicos que fazem da improvisação o único caminho possível diante do desconhecido momento futuro que nos espreita a cada agora.
Acreditamos que o diálogo seja um "versar com" o outro, uma poiese que se dá no terreno inter-relacional do espaço tecido entre as pessoas, mediado pela linguagem e gerador das histórias que vão ampliar o mundo e criar redes onde havia isolamento, pontes onde havia muros, esperança quando nada mais parecia fazer sentido.

Acreditamos que a linguagem não é inocente: podemos buscar a palavra para achar o pensamento e perder as certezas; para tocar sem ferir; para iluminar o caminho quando o outro se encontra perdido; para aproximar quando as distâncias aumentam; para aliviar, quando a pele está em carne viva; para acolher o movimento e dançar junto.

 

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