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06 Agosto 2011

TUTORES DE RESILIÊNCIA NA FAMÍLIA

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Denise Gomes

Autor: Denise Gomes - Regional APTF
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Capítulo do Livro: In: Manual de terapia familiar volume II. Org: OSÓRIO, L. C.; VALLE, M.E.P. São Paulo: Editora Artmed, 2011. 

Neste capítulo convido o leitor a refletir sobre a família como um processo ampliado que inclui a história transgeracional, a rede social imediata, a cultura local e o estado.

A família pode ser um lugar seguro para crescer quando a cultura na qual se insere não fere ou persegue as idiossincrasias de seus elementos e quando os dispositivos estatais garantem o apoio às necessidades básicas de cada membro da família.

Essa ampliação nos permitirá compreender a conceituação dos “tutores de resiliência”, tal como proposto por Boris Cyrulnik, numa tentativa de demonstrar quais são estes elementos que permitem que a resiliência possa ocorrer, como operam e de que forma poderíamos criar as condições para seu surgimento.

Trabalhamos com o conceito de resiliência como um processo de natureza relacional em oposição a uma possível conceituação baseada em uma abordagem intra-subjetiva. Ao invés de acreditar que é o sujeito o lócus e o motor do processo que permite a recuperação de um desenvolvimento possível a partir da quebra que promove a perda do sentido do humano, do senso de estar vivo, pensamos que é o campo social que propicia a ocorrência de acontecimentos carregados de sentido que servirão como base de sustentação para a construção de uma nova vida.

Durante trinta anos trabalhando com famílias em situação de risco, muitas empobrecidas e com parcos recursos emocionais para enfrentar as contingências, fui acompanhada pela inquietude de pensar que tudo o que eu fizesse não teria o efeito de uma mudança significativa, tamanhas as desgraças que caíam sobre aqueles seres frágeis a meus olhos, tamanho o estrago que esses acontecimentos perpetravam no corpo-alma daqueles indivíduos e daqueles sistemas relacionais. A obra de Cyrulnik nos traz a força de acreditar no potencial de superação de cada ser humano e de perceber que caminhos percorrer para participar de uma rede integrada promotora de processos resilientes.

Os segredos dos olhos.

Os olhos estão sempre abertos, exceto quando se protegem, piscam ou adormecem. Mesmo dormindo, eles procuram. Às vezes, pelo novo. Outras vezes, pelo mesmo. Sempre em busca de fazer com que a experiência faça algum sentido. Quero refletir sobre o problema de seguirmos nosso caminho colhendo folhas mortas, aprisionados em acontecimentos passados que nos torturam e fazem de nossos dias um eterno re-viver. Que saídas podemos encontrar e quais os elementos que podem permitir que sigamos em direção ao desconhecido carregando nossos desejos e nossa esperança?

Outro dia vivi um acontecimento marcante numa farmácia 24 horas. Era madrugada e fui comprar um medicamento para meu filho. Fui surpreendida pela moça do caixa, que afirmou me conhecer. Pedi desculpas, mas, de fato não me lembrava dela. Ela me perguntou se meu nome não era Débora, Deise, alguma coisa assim. Eu disse que me chamava Denise e ela se empolgou. “Isso mesmo! E tinha um Renê, Renan, não sei.” “Sim, o Renê e o Reinaldo. E você, como se chama?” “Jose.” Ela me olhou com um olhar brilhante e um sorriso doce e me disse que, quando criança, passou alguns anos no orfanato da praça Roosevelt. “Você não imagina como foram importantes para mim aqueles sábados em que vocês iam estudar e brincar com a gente. Era o melhor dia da semana. Eu esperava a semana toda pelo sábado.” “Você é que não imagina como é importante para mim ouvir isso. Obrigada”.

Eu tinha 13 anos naquela época. Como poderia imaginar que aqueles momentos compartilhados poderiam fazer diferença na vida daquelas crianças com tanta dor e desamparo na alma? Eu tinha os cabelos longos e as crianças ficavam horas alisando-os sentadas no meu colo. Eu sentia muita tristeza e imaginava que era eu quem me beneficiava de nossos encontros, sempre recebendo tanto afeto e carinho. Eu sabia que saía modificada, mas, o que se passaria com eles? Eu achava que sua dor tinha o poder de anular qualquer experiência afetiva positiva. Este acontecimento revela um dos desfechos possíveis e indica uma nova perspectiva a partir da qual procurar uma resposta para a indagação que me acompanha há tanto tempo.

Um filme me tocou recentemente, “O segredo de seus olhos”(i).Em uma trama envolvente somos convidados a acompanhar as escolhas de dois homens que se deixam aprisionar no enredo de suas vidas. Um deles persegue o assassino de sua jovem esposa, passando a viver em função de mantê-lo sofrendo em cárcere privado. Refém de sua necessidade de vingança. O outro se apaixona por sua companheira de trabalho e, impossibilitado de ver que ela o amava em reciprocidade, esvazia seus dias afastando-se dela. Refém do medo. Um filme em que os olhos são reveladores dos sentimentos mais profundos, não impedindo, no entanto, que suas intenções passem desapercebido. O diretor explora muito delicadamente esta dupla faceta do olhar: revelar e ocultar. O que os olhos revelam só pode ser decifrado por um observador. Mas ele tem que estar pronto para a descoberta. Muitas vezes, o observador apenas encontra o que procura, apenas confirma suas convicções, ficando cego para o que há para ser visto.

Quantas vezes nos deixamos aprisionar por nossas certezas e deixamos de seguir um caminho novo! Isso é mais grave quando nossa certeza é a de que teremos que perpetuar uma vida infame, calcada na dor, na humilhação e na solidão. Esse é um risco para milhares de crianças que sofrem negligência e maus-tratos. É um risco para cada um de nós que sofre uma grande desilusão ou a perda de algo vital.

Jasmim nasceu pobre e sua mãe carregava muita dor em sua alma. Assim, desde cedo, Jasmim sofreu os golpes da dor de sua mãe em seu corpo. Quando tinha 12 anos, sua mãe a levou para morar com um homem de mais de 30 anos. Um velho, segundo ela. Dois anos depois, sua mãe a tomou de volta. Jasmim tinha que fazer todo o serviço de casa, cuidar dos irmãos menores e receber os golpes que escapavam. Sua mãe bebia muito e sofria com a miséria e a solidão. Numa noite, enfurecida e alcoolizada, a mãe de Jasmim a despertou do sono com uma machadada na cabeça. Pegou-a pelos cabelos, que iam até a cintura, e começou a cortá-los com uma faca, gritando muito e dizendo palavras horríveis, amaldiçoando a filha e seus descendentes. Desesperada, Jasmim fugiu. Buscou acolhimento na casa do namorado. Teve dois filhos com ele. Vivem juntos uma vida de muita miséria. Ele se tornou violento com ela. Jasmim se tornou violenta com seus filhos. A cigana leu o seu destino: disse que ela ficará louca e morrerá sozinha. Essa é a verdade que ela carrega consigo. Tem os olhos perdidos no horizonte e a certeza de um fim tão trágico como seu começo.

Nilton Bonder(ii) nos ensina que para mudar, crescer ou se desenvolver o homem precisa trair. O novo é um rompimento com os padrões assumidos na vida, uma superação do que já se tornou uma tradição em nossas vidas, portanto, uma traição ao antigo modo de atuarmos e pensarmos. O apego seria, para ele, uma traição à própria alma, resultado de uma tensão entre a necessidade de preservação e o medo da transgressão. Para ele, não há superação sem transgressão. Ele nos lança o desafio de sempre buscar e sempre superar, o desafio da perseverança e da altivez.

O universo das experiências vividas nos limita a pensar que o que temos diante de nós é "tudo". Como ir além do jardim? Como deixar de tentar abrir as portas pintadas na parede de nossa sala diante de nossos olhos e descobrir o portal que se abre bem atrás de nós? Será possível mudar a direção a partir da encruzilhada?

A vida nos convida ao desconhecido. Mas procuramos sempre o mesmo. O homem precisa de ordem, de repetição, de previsibilidade. Ilusão. A única constante à nossa disposição é a mudança. A vida nos oferece o acaso, o imprevisto, o inusitado. Sempre a nos surpreender.

Saber o que não queremos mais e poder estar protegidos contra o que nos agride pode nos proporcionar boas escolhas. Porém, muitas vezes estamos inconscientes do que nos aflige e seguimos reféns de nosso medo através da evitação e da busca do mesmo.

Neste capítulo vamos refletir sobre o sentido que damos ao nosso vir ao mundo. É difícil precisar onde começamos. Mas, em se tratando de seres humanos, a galinha, com certeza, vem antes do ovo! Uma mulher descobre que está grávida... Ela pode ter 13 ou 43 anos de idade. Pode ficar desesperada ou radiante de júbilo. Este pode ser o seu primeiro filho ou o décimo-primeiro. Ela pode ter planejado a gravidez ou não ter a mínima idéia de onde vêm os bebês. Ela pode ter um homem a seu lado ou ter tido apenas uma relação ocasional. O pai pode ter o sonho de ter um filho com ela, pode pedir que ela tire o bebê, pode simplesmente não ficar sabendo que este bebê é seu filho. Esses elementos estarão encarnados no bebê que vai nascer e definirão muitos aspectos de suas contingências.

“Um bebê só pode se desenvolver em meio às leis inventadas pelos homens.” (Cyrulnik, 2008, pg.1). Assim, há crianças que já nascem fora da lei. “Se sua mãe ficar embrutecida de tanta infelicidade, expulsa da humanidade por ter trazido ao mundo uma criança ilegítima e não for capaz de oferecer braços que lhe dêem segurança, a criança, provavelmente, já não estará viva quando nascer” (Cyrulnik, 2005, pg.2). Se há uma lei que proíba que uma mãe tenha mais que um filho, o segundo filho deverá morrer ou viver uma não-existência na clandestinidade. Se há uma lei que determine que uma gravidez só pode ocorrer no contexto do casamento e que condena as mães solteiras como pessoas imorais, devendo ser isoladas e rejeitadas, essa criança nasce como a vergonha dessa mãe, como a culpada por sua desgraça. Se esta gravidez foi resultado do estupro de um soldado inimigo, como dar-lhe a vida sem manchar a honra da nação? Nesses contextos, é compreensível que uma mulher tente um aborto caseiro ou abandone seu bebê. Mas é lamentável e precisamos procurar maneiras para permitir que essas mulheres encontrem outros caminhos viáveis.

Uma das lições mais importantes que uma família tem que ensinar a suas crianças é como aprender a amar. Muitas são as crianças que são deixadas em instituições ou circulam por uma variedade de famílias adotivas sem constituírem vínculos duradouros que permitam a elas aprender a amar ou a adquirir o sentimento de ser digna de ser amada. Os riscos de maus-tratos a essas crianças é mais alto, pois é como se “as crianças sem família valessem menos do que as outras, fossem terra de ninguém, não sendo tão grave maltratá-las” (CYRULNIK, 2005, pg. 1). Os filhos de pessoas consideradas de menor valor também podem ser vítimas desse tipo de desvirtuamento. Se os pecados e os vícios são as virtudes enlouquecidas, precisamos colocar luz sobre esse mundo das sombras e trazer lucidez aos olhos dos homens.

Cada um de nós nasce na confluência de muitos fatores que determinam nosso começo. Então, temos uma vida inteira pela frente para recomeçar. Algumas pessoas conseguem trilhar uma vida da qual se orgulham e podem dizer que começariam tudo outra vez se preciso fosse. Muitos de nós, depois de muito aprendizado pelas más escolhas e por tudo que deixamos de fazer por medo dos desfechos, gostariam de fazer diferente, mas sentem que já é tarde. Quando se trata de vidas infames, isso é mais grave e é sobre estes casos que gostaria de deitar meu olhar mais detidamente.

(i)“El Secreto de sus Ojos” (2009, Argentina & Espanha), vencedor do Oscar 2010 de melhor filme estrangeiro, dirigido por Juan José Campanella tendo como atores principais Ricardo Darín e Soledad Villamil.

(ii) BONDER, N. – A Alma Imoral: traição e tradição através dos tempos. Rio de Janeiro, Rocco, 1998, pp 135.

Joãozinho não tem uma vida fácil. É o terceiro filho de um casal estável de classe baixa. Seu pai participava do crime organizado quando ele nasceu. Seu irmão mais velho logo seguiria o caminho do pai. Era uma trajetória promissora, carregada de sentido e de esperança, provedora de uma rede de apoio sólida e solidária. Seu pai tinha prestígio e viviam numa condição financeira melhor do que as famílias vizinhas. No entanto, era um lugar no exílio. Um lugar fora da lei. Um lugar de uma existência marginal num mundo à parte.

Um dia, durante uma fuga, seu pai matou um policial. Tudo se transformou.

Mudaram para bem longe do mundo que conheciam e seu pai vivia escondido, procurado. Seu irmão ingressou no crime, ajudando seu pai a prover a família. O medo era constante, mas seu pai era amoroso e dedicado. Joãozinho era o preferido do pai, que o cobria de presentes e o levava para passear. Sua mãe era feliz ao lado daquele homem que lhe dava uma vida cheia de conforto e mimos, apesar de todo perigo.

Dois anos se passaram até que seu pai foi capturado. Fizeram o diabo com ele na prisão. Pegaram também seu irmão. Levaram-no para o matagal e o torturaram o dia todo, com saco plástico na cabeça e tudo o que não tinham o direito de fazer. Depois o prenderam no presídio da facção criminosa contrária à de seu pai. A lei agora os cobrava que pagassem por sua errância à margem da sociedade.

Quem me contou tudo isso foi a mãe de Joãozinho. Seus olhos se distraíam entre os presídios e seu desencanto pela vida. Seus braços viviam agarrados ao passado e não tinha mãos para segurar ou conduzir os filhos.

O que Joãozinho precisaria fazer para continuar vivo? Qual era o seu lugar agora? Filho de presidiário, o fracasso dos fracassados. Tal pai, tal filho. Seu irmão seguiu seu destino. E o que seria dele, Joãozinho? Poderia sonhar com uma vida entre os “homens de boa vontade”? Poderia viver sua vida sem vingar as maldades feitas a seu pai e seu irmão pelos arautos da lei e da ordem? Como ser leal a sua história e a si mesmo? Ele era muito pequeno para pensar nisso tudo, mas estas questões o rondavam durante as horas sem fazer nada vidrado no chão da rua que o acolhia. Se correr o bicho pega. Se ficar, come. Onde buscar uma saída sem que a morte o apanhasse precocemente e sem trair o nome do pai?

Joãozinho passou a desaparecer. Ele sumia por uns dias e voltava. Ia para o centro da cidade virar pó, esvair-se nas nuvens e cair feito pedra.

Sua mãe cuidava dele da melhor forma que podia, queria evitar que algo de muito ruim acontecesse a Joãozinho. Ela sabia que o caminho do crime era um caminho sem volta. Joãozinho teria que encontrar o caminho do meio, onde transgredir seria seguir o caminho da lei e da ordem. Única chance de sobreviver à barbárie.

Um dia, Joãozinho estava novamente no centro da cidade e foi levado pela polícia para uma unidade de triagem da Fundação CASA. Ele não havia completado onze anos e as medidas sócio-educativas só se aplicam a crianças a partir de doze anos. Passou uma tarde no pátio com outros cem garotos. Foi currado por mais de dez, vinte, trinta, quarenta, cinqüenta. Seu ânus foi dilacerado e contraiu sífilis.

Sua mãe procurou o conselho tutelar, procurou a assistente social, a psicóloga. Procuramos um advogado. Mas de que adiantaria? Seu corpo havia sido arrombado, seu solo sagrado desonrado. Que direitos teria o filho do assassino de um policial? Ele era muito novo ainda para cumprir pena, mas os policiais não levaram isso em consideração. Tampouco a pessoa que fazia a triagem na Fundação CASA. Ficou detido para averiguações uma tarde, entre meninos maiores, mais fortes, mais descolados e numerosos. A covardia institucionalizada foi perpetrada contra Joãozinho.

Se sua família não foi capaz de protegê-lo, ainda restavam a rede social imediata, as ONGs, as instituições do estado. Todos falharam com Joãozinho.

Levado ao hospital, recusou-se a fazer a cirurgia que reconstituiria seu ânus, dando fim à hemorragia que perdurava. Foi liberado pela equipe médica sob a alegação de que não podiam fazer nada contra a vontade dele. Foi levado três vezes para tomar as injeções contra sífilis. Não o internaram e não o trataram pois não fariam nada contra a vontade dele. Nunca sua vontade teve tanto poder.

A equipe que cuidava de Joãozinho ficou perplexa. O conselho tutelar, a assistente social, a psicóloga, todos estavam de acordo com a necessidade de tratar Joãozinho mesmo que, naquele momento, isso significasse contrariá-lo. Talvez fosse um modo de salvar sua vida. A vida que ainda lhe cabia viver. E que vida seria essa?

Depois disso, Joãozinho passava os dias sentado no chão da rua de terra diante de sua casa com um cãozinho de pelúcia todo sujo amarrado a um barbante que ele segurava e, de vez em quando, puxava ou balançava, dando movimento ao animal. Eu olhava para ele e indagava o sentido de sua brincadeira. Eu me perguntava pelo sentido de ele movimentar o cãozinho. Dar-lhe vida? Eu me perguntava como ser como aquele barbante para Joãozinho. Como devolver-lhe a vida?

Filho da guerra.

Boris Curulnik nasceu em 26 de julho de 1937 em Bordeaux, na França. Seu trabalho tem a marca pós-moderna da segunda cibernética ao incluir o observador no campo observado: ele é uma das crianças resilientes que sobreviveram à II Grande Guerra. Judeu, quando tinha apenas 6 anos de idade escapou de uma batida policial em que seus pais e sua irmã foram levados e assassinados em campos de concentração. Precisou aprender a viver sem o apoio da família num contexto cultural que condenava sua natureza, sob o domínio de um exército inimigo que queria exterminar sua raça. Com o final da guerra, teve a chance de recomeçar com o apoio de seu povo, sua comunidade e seu estado. Estudou na Universidade de Paris e escreveu vários livros. É mais conhecido por ter desenvolvido e divulgado ao público o conceito de resiliência psicológica. Ele é neuropsiquiatra infantil, chefe de ensino da clínica do apego na Universidade de Toulon – Var e presidente do Observatoire International de la Résilience.

Para ele, diante da perda, da adversidade e do sofrimento, inevitáveis em algum momento da vida, várias estratégias são possíveis, desde a entrega à carreira de vítima até a tentativa de transcender. A resiliência, nas palavras de Cyrulnik, não seria uma história de sucesso, mas a história da luta de uma criança empurrada para a morte que inventa uma estratégia para voltar à vida (CYRULNIK, 2009a). Ele recusa a aceitação da tragédia como um fracasso anunciado desde o início, acreditando ser possível fazer surgir o desenrolar imprevisível a partir de soluções surpreendentes. Esse desenrolar sempre dependerá do acaso e da coragem para aceitar os desafios e encarar as mudanças.

Tendo sido capaz de sobreviver à própria tragédia e viver uma vida suficientemente prazerosa, Cyrulnik procurou entender como é que algumas pessoas podem resistir às tragédias retomando seu desenvolvimento e reinventando uma vida quando outras sucumbem à depressão, ao alcoolismo ou ao suicídio, como tantas pessoas que sobreviveram ao holocausto. Tomou emprestado o termo cunhado na física pelo cientista inglês Thomas Young em 1.807. Ele foi um dos primeiros a usar o termo resiliência. Estudando a relação entre a tensão exercida sobre um corpo e a deformação sofrida, postulou a resiliência como a capacidade de recuperação das características iniciais de um material após ter sofrido um montante significativo de tensão. Resiliência para a física é, portanto, a capacidade de um material voltar ao seu estado normal depois de ter sido submetido a estresse, acumulando energia quando exigido sem ocorrer ruptura. Após a tensão cessar poderá ou não haver uma deformação residual causada pela histerese do material. Como um elástico ou uma mola, os materiais resilientes possuem características que os tornam aptos a amortecer e, em determinadas circunstâncias, podem vir a impulsionar.

Quando falamos em resiliência psicológica nos referimos a um processo complexo que envolve o sujeito e seu ambiente sócio-cultural. Os elementos subjetivos são de tal ordem que seu valor varia de acordo com o contexto, não podendo ser avaliados em si mesmos, sem considerar uma história e um observador com sua própria história. Assim, o termo resiliência, quando adotado por Cyrulnik, sofreu algumas adaptações. Ele se refere à possibilidade de uma criança resistir aos impactos e estresses da vida ancorada numa série de elementos relacionais e culturais. Os processos de resiliência psicológica dependem de vínculo e busca de sentido.

O estudo dos processos resilientes procura desvendar os elementos que permitem que uma infância infeliz não determine uma vida inteira, não seja sempre um caminho para a depressão, o alcoolismo ou o suicídio. Resiliência é um processo que permite retomar algum tipo de desenvolvimento apesar de um traumatismo e em circunstâncias adversas.

“Só se pode falar de resiliência quando ocorre um traumatismo seguido da retomada de algum tipo de desenvolvimento, a reparação da ruptura. Não se trata do desenvolvimento normal, mas um desenvolvimento desviado pela violação do eu. A pessoa ferida na alma tem o traumatismo inscrito na memória, que passa a fazer parte de sua história. Um acontecimento”. (CYRULNIK, 2005, pg. 6)

Este acontecimento significativo e significante pode ser o fio condutor que permite sair do labirinto que tem como minotauro sua própria tragédia. O sujeito ferido muitas vezes irá trilhar o caminho do curador ferido. Como o faz Cyrulnik: cuida de sua ferida ao cuidar de todas as feridas do mundo. Faz desse cuidar o fio de Ariadne que lhe permite escapar da morte e recuperar o sentido do humano. Desse modo, a resiliência atinge seus principais destinos: amortecer e impulsionar. Não apenas permite recuperar um sentido que dignifica a vida e permite obter prazer como serve de impulso enchendo o ser de entusiasmo, habitando de desejo seu espírito.

A Resiliência e seus tutores.

Quando uma criança vive na miséria familiar e na violência social, mas não lhe falta afeto e deslumbramento com sua cultura (rituais, histórias, mitos, música, etc.), ela pode encontrar os dois elementos estruturantes dos processos de resiliência: vínculo e sentido “Sem vínculos significativos e sem história, como poderíamos nos tornar nós mesmos?”(CYRULNIK, 2005, pg. 5).

Rosa nasceu num dia escaldante do sertão nordestino. Sua mãe trabalhara no roçado desde as quatro da manhã e seu resguardo não durou mais que uma semana. Não comeu canjica e não amamentou. Avariada pela vida amarga decidiu que aquela criança cuidaria dela. Assim que Rosa teve idade, começou a roçar. Antes mesmo de ir para a escola. Rosa também aprendeu cedo a cuidar da roupa, da casa, da comida. A escola era o único lugar onde sentia-se protegida e cuidada. Seu pai a acompanhava à escola todos os dias numa longa caminhada. O dia ficava mais curto e a esperança podia brotar. Sua mãe não gostava que ela se afastasse dos afazeres domésticos e vivia encontrando motivos para ela não ir à escola. Quando seu pai partiu para as estrelas, sua vida escolar foi ceifada. Sua mãe a deu em casamento a um homem velho e bruto. Trabalhava de sol a sol e tinha que cumprir os deveres de mulher. Teve um filho e o homem a deixou. Ela abandonou aquela terra insossa e foi tentar a vida na cidade grande. Nem saudade foi levando. Na terra nova, encontrou um homem ruim que bateu muito nela e, depois, a trocou por uma mulher mais nova e linda. Como Rosa trabalhou para sustentar seus três filhos! As lembranças da escola permaneceram como um refúgio num mundo sem coração. Com 45 anos e rugas acumuladas de cem anos de solidão, matriculou-se. Aprendeu a ler e escrever, aprendeu os números, vive sorridente e se diz feliz. Quando se lembra de sua história ela se emociona e chora. “Eu sei o que é sofrer”, repete. Na hora de se despedir abraça fortemente e sorri com os olhos de quem aceita o convite.

A resiliência só é possível quando o ambiente oferece estabilidade afetiva e ajuda a criança a dar sentido à sua aflição. Rosa tirou leite de pedra. Alimentou-se do amor de seu pai e confiou na escola como uma saída possível daquela vida infame. Estes foram seus tutores de resiliência, os elementos que lhe deram esperança e serviram de lastro para enfrentar seus desfortúnios.

Há dois tipos de tutores de resiliência: os tutores de vínculo e os tutores de sentido. Os tutores de vínculo estão ligados à experiência de sentir-se amado e legitimado. Eles contribuem para a aquisição do senso de duração e do senso de confiança na realidade. Para que um elemento da experiência se converta em tutor de resiliência vincular é necessária uma relação duradoura marcada por acontecimentos significativos que se destacam adquirindo um valor simbólico sublime que os reveste de um sentido de esperança. Podem ser chamados de tutores de resiliência afetivos, oferecendo amparo e acolhimento em momentos de aflição e angústia. O tutor de resiliência é a própria relação, não a pessoa a quem a criança se vincula. “Sou capaz de estabelecer uma relação significativa com alguém, sou capaz de amar e ser amada”. Para que ele ocorra, é preciso que se concretize uma relação amorosa que se sustente durante o período de elaboração e ressignificação do fato traumático. Quando isso não ocorre, a criança não é capaz de se vincular novamente à vida.

Os tutores de sentido estão associados à experiência de ressignificação do traumatismo e permitem a recuperação do senso de existir. Eles oferecem hospitalidade, restabelecendo o senso de pertencimento ao humano, resgatando a criança da sensação de estar alijada, “fora”, estrangeira. A experiência nefasta ganha contornos tristes e o lamento pode embalar o embrutecimento. O tutor de sentido é a brecha na cultura que acolhe oferecendo palavras para dizer. Sem acreditar que uma outra vida ainda é possível entre os homens, não pode ocorrer resiliência. Quando uma experiência não pode ser incluída no campo dos possíveis de uma cultura, ela lança a criança para o exílio de si mesma.

Para um acontecimento se constituir em um tutor de resiliência ele precisa ser convertido pela criança em elemento de representação de si mesma, compondo o enredo de sua biografia. Isto vale tanto para os elementos vivenciais que exercem a função de tutores de resiliência vinculares como para aqueles que dão sentido ao vivido. A criança não tem consciência deste processo e não escolhe como e quando ele irá ocorrer. Este é um processo de natureza estocástica, em que os elementos se acumulam de forma a fazer sentido, porém, sem que se tenha controle do processo.

“Ninguém pretende que a resiliência seja uma receita de felicidade. É uma estratégia de luta contra a infelicidade que permite obter prazer em viver apesar de (...)”(CYRULNIK, 2005, pg. 6). uma história fundada no desrespeito às necessidades e direitos individuais.

Rosa relata ter tido a infância roubada por sua mãe. Mais tarde, seus companheiros saqueariam sua juventude e sua inocência. Ela se lembra da companhia de seu pai no caminho para a escola e de uma professora que a ensinava com paciência. Ela tinha dificuldade para aprender e as outras professoras ralhavam muito com ela. Estes dois vínculos se converteram em acontecimentos, marcaram sua história e a sustentaram em seus momentos de maior sofrimento. A companhia de seu pai lhe mostrou que ela não era apenas uma criança escrava a serviço de sua mãe dominadora. Ela era uma filha que merecia o tempo e a dedicação de seu pai. O olhar atento da professora a legitimou como ser humano que aprende e evolui. A possibilidade de ler e ouvir histórias lhe ensinou que, além da realidade, existe o sonho e a fantasia.

“Quando um elemento da realidade não quer dizer nada, não chega à consciência, não se transforma nem mesmo em uma lembrança. Nos lembramos daquilo que é ou foi significativo, carregado de sentimento ou de sentido para nós. Quando um fato vivido não faz sentido, não se integra à nossa história. Mesmo que façamos um diário e registremos todos os acontecimentos do dia, apenas alguns se transformarão em lembranças. Estes não precisarão do registro no papel para serem lembrados”. (CYRULNIC, 2005, pg. 9).

Para que um acontecimento se converta em um tutor de resiliência, ele precisa acontecer na relação com um outro que ofereça um olhar de legitimação da humanidade que existe no ser que sucumbe à dor. Algo no campo de experiências do sujeito precisa ser saliente e se destacar da massa indiferenciada de eventos padronizados e naturalizados pela repetição convertendo-se num acontecimento carregado de sentido. Para experimentar um sentimento de acontecimento, é necessário que alguma coisa no real provoque uma surpresa e adquira um significado que torne a experiência singular.

Um acontecimento com potencial para se tornar um tutor de resiliência traz uma informação nova que faz a diferença na vida daquela pessoa. “Minha mãe só tem olhos para si mesma e para minha irmã. Ela me trata como uma mula e transformou minha vida num inferno. Apesar disso, meu pai me ama, acredita em mim e deseja que eu seja feliz.” Seu pai não a protegeu do trabalho extenuante, não intercedeu a seu favor junto à sua mãe-madrasta, não a levou consigo quando partiu, mas os momentos em que ele a autorizava a ser ela mesma e se desenvolver na escola eram momentos de uma tal magia que tinham o poder de fazê-la acreditar em si mesma e na vida. Rosa não teve boas professoras, apenas uma teve paciência com ela. Mas esta lhe marcou maravilhosamente! Destacou-se do cenário entorpecido pela indiferença e pelo desamor. Numa terra fértil, qualquer gota d'água faz brotar a vida.

“Algumas cenas irão se transformar em memória e balizar nossa identidade narrativa. (…) Sem acontecimento, não há representação de si. O que ilumina um pedaço do real para torná-lo um acontecimento é a maneira como o meio torna a pessoa sensível a esse tipo de informação.” (CYRULNIK, 2005, pg. 10)

Mais do mesmo pode não ser importante, pode se tornar fundo diante de uma figura que se destaque. Os fatos e seus desfechos se sucedem na vida. Entre eles há os que nos dilaceram e os que nos acalantam. Esta variação permite que mesmo numa situação de extrema violação do humano alguns elementos se destaquem e permitam inspirar a vida.

Este potencial precisa ser aproveitado. Cada ser humano é uma terra fértil que pode fazer brotar a partir de uma gota d'água. Nossos gestos, nossas palavras e nossos olhares tornam-se potenciais tutores de resiliência diante de acontecimentos que ferem a ética relacional baseada na legitimação do outro como um legítimo outro.

Quando Nina foi concebida, Cronos já anunciara que a devoraria. Sua mãe sabia que não teria braços para protegê-la daquele pai que judiava brutalmente de seu primeiro bebê. Aprisionada em sua paixão, como uma mulher de Atenas, despia-se para o marido vil e amante. Nina cresceu com a marca da dor no corpo e na alma. Seu corpo era açoitado, dominado e controlado. Sua alma viva se mortificava com a falta de interdição de sua mãe diante da tortura diária perpetrada contra seu irmão mais velho e contra si. Seu irmão e sua irmã mais novos sofriam menos golpes na carne. Quando teve a primeira menarca, seu pai a violou sexualmente. Passou a tê-la como amante. Fez o mesmo com sua irmã, mas Nina era a preferida. Ele a proibia de sair com sua mãe depois da escola e a levava para a cama. Não suportando aquela situação, Nina encontrou coragem de enfrentar as ameaças de morte e contou para sua mãe. Desesperada de ciúme, sua mãe disse não acreditar nela e a manteve sob o poder do pai como vingança por sua traição. Nina ainda encontraria coragem para denunciar o pai a seu tio materno. Ele reuniu a mãe de Nina e seus irmãos e a denúncia foi feita. O delegado disse que só poderia agir em flagrante e Nina teve que ficar em casa sozinha com seu pai mais uma vez para receber a proteção da lei. Seu pai agora está obrigado a respeitar uma distância quilométrica em relação às filhas.

“Só podemos falar de traumatismo se houve uma violação, se a surpresa cataclísmica ou insidiosa submerge o sujeito, lançando-o numa torrente numa direção que ele não desejaria. No momento em que o acontecimento traumático rompe a bolha protetora, desorganiza o mundo e o torna confuso. Desamparado, o sujeito não está completamente consciente do que lhe acontece” (CYRULNIK, 2005, pg. 10). A maneira como o acontecimento traumático é acolhido e interpretado pelos outros significativos exerce papel decisivo no destino do sujeito. Sua dor precisa ser reconhecida e legitimada, seu ser precisa ser aceito e amado apesar da cicatriz deixando à mostra sua monstruosidade.

Não podemos perder de vista que a vítima de uma grande violência faz parte da história. Isso não quer dizer que haja uma cumplicidade, mas um pertencimento. O processo de individuação, em que a pessoa poderá discriminar entre as diferentes maneiras de tomar parte na tragédia e as distintas responsabilidades, dar a César o que é de César, é possível, mas leva tempo e exige cuidados no tecer de novas narrativas e no trilhar de novos caminhos que permitam reconstruir o mundo e redesenhar os mapas.

Diante do acontecimento traumático é preciso dar sentido à violação o quanto antes para não permanecer nesse estado confuso. Para reconstituir um mundo íntimo é necessária uma representação através de imagens e de palavras carregadas de sentido ressignificando a situação violadora.

Nina tinha uma cumplicidade salvadora com sua irmã mais nova. Ela era seu bote salva-vidas. Sentia-se ao mesmo tempo compreendida e responsável por ela. Em suas conversas, podiam legitimar a dor uma da outra e encontrar brechas para dar sentido ao caos que caracterizava seu mundo. Entendiam que sua mãe tinha um amor tão grande por seu pai que o amor que ela nutria pelos filhos não era suficiente para fazer com que ela enfrentasse o marido para proteger a cria. Ressentiam-se da insuficiência do amor da mãe e revoltavam-se contra a violência do pai. Mas não faltava a palavra amor quando falavam de sua mãe. Era ela quem cuidava das feridas, era ela quem cuidava da casa, era ela quem cuidava da comida, era ela quem cuidava da roupa. Ela era uma mãe cuidadora que não soube interditar seu esposo. Quem não tiver pecado que atire a primeira pedra.

“O acontecimento que produz o trauma se impõe e submete a criança. Por outro lado, o sentido que ela atribui ao acontecimento depende dos vínculos e dos rituais que a cercam”. (CYRULNIK, 2005, pg. 11). É possível restabelecer uma certa ordem quando a experiência é acolhida e a criança sente-se protegida e compreendida.

Não há, portanto, acontecimento em si mesmo determinante, danoso por definição. Um mesmo acontecimento (uma gravidez indesejada, um abuso sexual, uma situação de miséria, etc.) pode assumir um valor notável em um contexto e banal em outro. Afinal, só podemos nos desenvolver em meio às leis inventadas pelos homens.

Rosa e Nina são exemplos que nos permitem perceber em que consiste o suporte que deve envolver o sujeito após a fratura e lhe permitirá reviver apesar da ferida e da lembrança dela. Elas nos indicam que a existência de vínculos significativos e da instrumentalização para desenvolver uma práxis transformadora do mundo são elementos fundamentais. Vimos também que não se pode pré-determinar quais serão os elementos à disposição do sujeito que serão eleitos por ele nesse processo e que elementos aparentemente simples e sem significado em si mesmos poderão assumir um papel importante. É o sujeito quem irá dar alma aos acontecimentos.

No entanto, nem sempre o fato traumático se apresenta a nós como acontecimento. Em situações de privação afetiva, na maioria das vezes, a criança tem dificuldade de se dar conta do quanto essa experiência é devastadora. Não fazendo dela um acontecimento, uma lembrança que ela poderia enfrentar trabalhando sobre ela, aquela lembrança permanece oprimindo sem poder ser transformada. Isso pode acontecer com qualquer incômodo ao qual nos acostumamos. Uma relação homem-mulher num casamento falido pode esvaziar a alma, principalmente quando se teve uma infância silenciosa, sem palavras ou gestos de amor que nos confortassem e nos acolhessem em nossos desastres. O silêncio prolongado pode se converter em um abandono invisível.

“Quando não encaramos uma reminiscência, ela nos obseda, permanece como uma sombra, e é ela que irá nos modelar. Ela nos atormenta. Somos moldados pelo real que nos cerca, mas não temos consciência disso. A marca do real se inscreve em nossa memória sem que possamos perceber, sem que isso se transforme em um acontecimento”. (CYRULNIC, 2005, pg. 14)

Assim, podemos compreender a importância de revelarmos ao outro sua própria dor. Quando um paciente, ou mesmo um amigo, nos apresenta sua ladainha costumeira temos a chance de fazer emergir desse lamaçal um traço com poder de acontecimento, algo que se destaca na experiência como um fator de humilhação ou aniquilação do ser. Se formos capazes de fornecer elementos para converter o corriqueiro solapador em acontecimento significativo estaremos oferecendo uma oportunidade de exercício de seu poder transformador, estaremos oferecendo algo a ser enfrentado e superado.

“Qualquer traumatismo nos transforma e nos desvia para a tragédia mas, a representação do acontecimento nos dá a possibilidade de fazer dele o eixo de nossa história, uma luz a nos guiar, uma referência. A ferida é, evidentemente, real, mas seu destino não é inconciliável porque é possível fazer algo com ele”(CYRULNIK, 2005, pg.16).

A ressignificação da experiência traumática é um dos principais elementos que caracterizam os tutores de sentido. É quando a experiência pode ser incluída entre as experiências previstas na lei dos homens, é quando aquilo que não é como deveria ser, mas é a realidade da criança, pode ser aceito e incluído no campo dos possíveis, autorizando a criança, novamente, a ser.

Aprendemos a amar à nossa revelia, sem nem mesmo saber de que maneira amamos. Não são apenas os fatos marcantes que conformam nossos padrões afetivos. Tantas coisas nos passam desapercebidas... “Um acontecimento é uma inauguração, como um nascimento para a representação de si mesmo”(CYRULNIK, 2005, pg. 15). Mas o vivido vai deixando suas marcas e deslindando nossos contornos.

Devemos sempre investigar quais os efeitos, a longo prazo, da privação sensorial e afetiva na infância, da perda precoce de um ou ambos os genitores, da exposição prolongada a abusos físicos e sexuais. O que os estudos vêm demonstrando é que as causalidades e os recursos psíquicos são incessantes e numerosos, estão sempre em construção e ampliação. Os estudos que observaram o contexto dessas crianças tentando identificar os tutores de resiliência indicam que não existe uma relação linear causal entre o fator traumático e o destino do sujeito. Muitos podem ser os destinos. Quando a criança tem a sorte de encontrar tutores de resiliência afetivos e sensatos, ela retoma rapidamente seu desenvolvimento e pode até recuperar seu atraso.

Mesmo garantida essa etapa de retomada do desenvolvimento, que para a criança pequena pode representar a vida, mais tarde, chegada a idade da fala, ela precisará de tutores verbais e culturais que a incluam no campo cultural compartilhado.

Freud indicou um novo caminho ao explicar que a perda afetiva de um objeto real cria o sentimento de mundo vazio e cinzento, não sendo a depressão o resultado de um mal funcionamento do sistema nervoso isolado das contingências. Ele ampliou nossos horizontes e permitiu olhar para dentro e para fora e relacionar estes dois mundos. Cyrulnic nos mostra que nem todo luto precoce, nem toda perda afetiva durante a primeira infância, torna o indivíduo vulnerável de forma duradoura e o predispõe às depressões da vida adulta. Não existe uma causalidade linear entre um luto precoce ou um traumatismo e um destino de depressão na vida adulta. As causas se sucedem sem cessar na vida, de tal forma, que um fato que provoca felicidade pode suceder a um fator de infelicidade. As cascatas de causas fazem convergir forças opostas que podem contribuir para a recuperação de uma criança ou para o agravamento de sua condição (CYRULNIK, 2009b).

Tudo isso permite afirmar que, após um luto precoce ou um trauma, dependendo da maneira como o ambiente se reorganiza em torno da criança, esta poderá retomar um desenvolvimento modificado. Mas, se não houver um entorno capaz de fornecer tutores de resiliência afetivos e simbólicos, seja porque a família se alterou de maneira inconciliável ou desapareceu, seja porque as crenças culturais impedem uma re-inclusão do sujeito na lei dos homens, este é um caso que deverá despertar nossa preocupação (CYRULNIK, 2005.)

O que Jasmim, Joãozinho, Rosa e Nina me ensinaram.

Jasmim está desencontrada de si mesma. Navega a esmo em sua Nau dos Loucos vendo com desrazão o enredo de sua vida. Seus olhos cor de mar são todo o azul que coloriu sua vida. Tudo em volta são trevas e dor. No alto de seus vinte e dois anos acumulou mais cenas de horror que sorrisos nos lábios. Não é capaz de reconhecer como hospitaleiros os gestos de carinho e acolhimento à sua volta. Talvez tenhamos chegado tarde demais.

Joãozinho permanece mergulhado em seu pesadelo, sem encontrar um fio de esperança que lhe permita vir à tona e respirar. As pessoas à sua volta continuam estendendo-lhe a mão, mas não podemos esperar que ele recolha os cacos e reconstrua o vaso quebrado. Há um limite que nos torna impotentes diante de nosso desejo de ampará-lo e devolver-lhe a vida. Ele parece estar diante de uma missão impossível: dar um sentido ao absurdo.

Rosa ainda chora cada vez que se lembra de seu sofrimento e de sua história. Carrega mágoas inconciliáveis e feridas incuráveis. Mas encontrou um atalho que a reconduziu à vida e a permite ter prazer em pequenas coisas, como num café quentinho e numa fatia de bolo, num abraço e num dedo de prosa. Seu deslumbramento por tudo o que a escola representava amorteceu suas quedas e serviu de trampolim para a superação de obstáculos. Mais além da escola em si havia um sentido que deu sentido à sua vida.

Nina foi uma aluna exemplar. Terminou o colegial, conseguiu um emprego e está pensando em fazer faculdade de psicologia. Mas ela não se sente bem. Ela se ressente de estar sempre muito triste e de sentir medo. Um medo disseminado, indefinido e generalizado que a acompanha como uma sombra. Também sente muita raiva e não controla suas reações agressivas. Gostaria de encontrar paz dentro de si, mas reage aos irmãos e à mãe com gritos e palavras rudes. Não tem amigos e não gosta de namorar, apesar de sua beleza deslumbrante atrair muitos interessados. Depois que sua irmã engravidou e saiu de casa, Nina sente-se muito só. O que mais deseja é sentir o amor de sua mãe. O traumatismo pode nos tornar eternos buscadores de reparação.

O milho da pipoca precisa ferver na panela para descobrir que pode transcender e passar de milho mirrado a uma flor branca e bela. Alguns não vencem o fogo e viram piruá. O vaso rachado chega menos cheio e pode faltar água. Se lembrarmos de semear o caminho, com o tempo, o lado da estrada por onde ele passa pode formar uma trilha florida. O que amortece também impulsiona.

Cada pessoa desenvolve suas habilidades graças às dificuldades que a vida oferece, mas as pessoas são feitas de alma e a alma se ressente e se emociona. Quando a vida pesa mais do que as asas podem suportar, perdemos a capacidade de alçar vôo. O estudo dos processos resilientes nos permite perceber que sempre é hora de estender a mão e que, amanhã, poderá ser tarde demais.

Referências.

BONDER, N. – 1998 - “A Alma Imoral: traição e tradição através dos tempos”. Rio de Janeiro, Rocco, pp 135.

CAMPANELLA, J. J. - 2009 - “El Secreto de sus Ojos”. Filme. Argentina & Espanha, vencedor do Oscar 2010 de melhor filme estrangeiro.

CYRULNIK, B. - 2004 - “Os Patinhos Feios.” São Paulo, Martins Fontes, pp. 215.

CYRULNIK, B. - 2005 - “O Murmúrio dos Fantasmas”. São Paulo, Martins Fontes, pp. 184.

CYRULNIK, B. - 2009a – “Autobiografia de um Espantalho: histórias de resiliência, o retorno à vida.” São Paulo, Martins Fontes, pp. 207.

CYRULNIK, B. - 2009b – De corpo e Alma: a conquista do bem-estar. São Paulo, Martins Fontes, pp. 184.

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