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2014 - Palestra Familia: A dança entre as forças de pertencimento e de autonomia

Palestra proferida no III Simpósio Nacional de Psicopedagogia da ABPp com o tema: "Psicopedagogia: Novos Tempos... Novos Cenários..."em 27.09.2014.

Familia: A dança entre as forças de pertencimento e de autonomia.
Sandra Fedullo Colombo
Pensar a família com sua influência na formação da criança e do adolescente  levou-me a algumas reflexões que quero compartilhar com vocês e colocá-las em discussão.
Precisamos ter em mente que tudo que acreditamos e procuramos definir é fruto de acordos compartilhados socialmente e assim fruto de um momento histórico contextualizado.
Enfatizo dessa forma que me vejo situada dentro do paradigma da complexidade que acredita na relatividade do conhecimento e nas realidades múltiplas.
É deste lugar que gostaria de conversar com vocês e expor meus valores e crenças.
Penso que não consigo falar de família, sociedade e construção da identidade sem me debruçar na história.
O que penso que é família, sendo uma terapeuta nascida na sociedade ocidental, imediatamente após a 2ª guerra mundial, que se denomina construcionista social e que se alimentou na revolução do pensamento relacional sistêmico?
Penso família como um sistema de relações afetivas, aberto, vivo, com uma trajetória no tempo, mutável, inserido em um macrocosmo social, sendo um segmento conservador deste, e vivendo um encontro de forças externas e internas, em equilíbrio instável, tudo em relação, circularmente e em retroalimentação.
Forma uma unidade em movimento através do tempo social e afetivo.
É um tecido de relações de afeto, memórias e esquecimentos, depositário da história transgeracional daquele grupo e da sociedade ampla onde está inserido.
Compreendo que o ser humano ao nascer é recebido na maior parte das vezes por um grupo familiar para que se socialize e se torne um individuo que participe do jogo social.
Penso que o bebe ao nascer tem a possibilidade de tornar-se humano. Recebê-lo no seio da família é ter o compromisso de humanizá-lo.
No entanto, de que humanidade estamos falando?
De que ética relacional estamos nos referindo?
O que acreditamos como humano?
Pedi a ajuda de alguns autores para pensarmos essas questões:
Margareth Mead e seus estudos sobre sociedades primitivas da Polinésia onde descreveu três modelos vinculares que com toda coerência preparavam indivíduos adequados para a manutenção de seu jeito de viver:
- modelo complementar que se caracterizava pelas ações cooperativas, pela pouquíssima competição entre os indivíduos e com os grupos vizinhos, onde a simbolização do cotidiano era pequena, dedicavam-se à pesca e à caça só com armadilhas, pai e mãe viviam o puerpério, e os bebês eram sustentados por cestinhos na altura dos seios, mamando quando quisessem,e não eram estimulados a conquistar espaços e independência.
- modelo simétrico que se caracterizava por enorme competição entre os sexos e com os grupos vizinhos, guerreiros fortes, caçadores de cabeça, tendo a guerra e a caça como atividades principais. Desenvolveram a arte plumária e da pintura no corpo; colocavam, os bebês em cestinhos nas costas, longe dos seios, e rapidamente iam para o chão para conquistar espaços, não eram atendidos ràpidamente quando choravam e antes de terem dentes já recebiam pedaços de carne para comer.
- modelo recíproco que se caracterizava pelo sistema de trocas entre as pessoas. Cada um participava de uma função e o outro era chamado a retribuir. A negociação estava sempre presente e as crianças desde cedo eram chamadas a contribuir. Essa organização social compreendeu rapidamente os valores da sociedade ocidental como o dinheiro para pagar as coisas.
Esses estudos mostravam a coerência entre o macrocosmo e o microcosmo em interação. O berço social das relações vinculares.
Penso que a sociedade prepara os indivíduos que necessita para que possa se perpetuar e assim também é a família preparando seus membros para serem leais a suas histórias. Por essa razão reconheço a família como um segmento conservador da sociedade: tem como papel “conservar” os valores e crenças.
 Ou seja, podemos compreender que uma sociedade que necessita caçadores de cabeça construirá modelos vinculares que formem esses guerreiros, e ao formá-los manter-se-a ativa de forma retro alimentadora e recursiva.
A sociedade (Bauman 2011) de consumo e do espetáculo (Birman 2011)  criará modelos vinculares que priorizam o fazer e o ter e não a intimidade, pois o valor é a transitoriedade e a ostentação.
Quando pergunto de que humanidade estamos falando, quero devolver a coautoria da sociedade a cada ser humano que participe dela. A circularidade nos permite perceber a possibilidade de sermos construtores de alternativas, e assim ao invés de “conservar” e “repetir” podemos ter um pensamento reflexivo e ações alternativas.
Acredito que toda história humana está fundada nas relações e na construção dos significados que damos à experiência. Enfatizo assim a dimensão ampla e a particular que se alimentam reciprocamente e formam as forças que constituem o novo ser.
Continuemos nossa viagem.
Vamos lembrar de Bowlby (1989) e Bowen (1979).
Bowlby colocou os olhos no processo particular e profundo da formação dos vínculos primários na constituição da identidade de cada ser. Falou de forma perturbadora da plasticidade do bebê na interação com o adulto significativo e da constituição, a partir dessas experiências primarias, dos modelos de apego que influenciarão suas relações. Todos conhecemos seus estudos e suas descrições sobre o que denominou de apego seguro e apego inseguro subdividido em ansioso ambivalente e ansioso evitador. Não me prolongarei nessas reflexões pois suas pesquisas mostram com clareza sua preocupação com o inicio da vida relacional sobre a formação da identidade.
Winnicott (1975), Stern (1977) e Safra (1999) trouxeram maravilhosas contribuições nessa direção.
Bowen (1979) desenvolveu seus estudos focando o conceito de massa indiferenciada do eu familiar.
Segundo o autor ao nascermos somos recebidos por nosso grupo de pertencimento em uma massa indiferenciada do eu familiar,  em um processo continuo iremos do estado de fusão completa para o de diferenciação a caminho da individuação.Esse processo, segundo o autor,  nunca se completa e  em alguns momentos retrocede a situações de maior fusão como na ocasião de nascimentos, mortes, acidentes, doenças, etc.
Juntemos esses conceitos a Moreno (1978) com sua compreensão que todos pertencemos a uma matriz que nos recebe e esta pode ser predominantemente cunhadora ou predominantemente originadora. Melhor dizendo espaços afetivos e sociais que cunham o individuo para não apresentar nenhuma originalidade, como moedas que não podem apresentar “defeitos”, ou espaços que ajudam a construir a singularidade do ser.
Todos esses autores me inspiraram na compreensão do processo de humanização de cada ser humano que chega ao mundo.
Essas teorias buscam organizar a compreensão da interação do intrapsiquico com o interpsiquico, pois na minha crença, é nessa interseção que se constrói o individuo, e este ser está mais ou menos autorizado a ser singular e autônomo, amoroso e cooperador dependendo de seu micro e macrocosmo.
Chegamos ao titulo de nosso encontro: A dança entre as forças de autonomia e as forças de pertencimento.
Na minha compreensão é da coreografia entre essas forças que se construirá a identidade de cada um. O passo inicial é a formação do vinculo de pertencimento e nesse vinculo a possibilidade maior ou menor da construção dos espaços de singularidade e diferenciação.
A lealdade seria expressa por uma repetição de todas as heranças transgeracionais e sociais ou haveria a possibilidade de se respeitar e legitimar a existência singular de todos os envolvidos? Lealdade às heranças ou lealdade a construção de alternativas?
É possível pertencer, ser leal e ser singular e autônomo?
Neste momento ninguém melhor do que Maturana para ajudar-nos!
Este biólogo diz que a natureza humana tem em seu DNA a capacidade amorosa, entendida como o potencial para a agregação e a empatia. Afirma que durante muitos séculos a sociedade foi dominada pela organização patriarcal ou matriarcal cujos pilares são a competição e o domínio sobre os outros e o planeta.
Maturana pede para não esquecermos que já existiram sociedades baseadas na cooperação e solidariedade e harmonia com o planeta, que ele denomina de matristica.
Vamos pedir licença a esses pensadores e fazer um paralelo entre eles:
Penso que Margareth Mead ao falar do vinculo complementar, Bowlby ao descrever o apego seguro, Bowen ao enfatizar o pertencimento como o caminho para a autonomia, Moreno ao enfatizar a matriz predominantemente originadora e Maturana ao nos convidar para construir uma sociedade matristica, colocam foco no que chamo de uma ética relacional horizontal onde todos são convidados a buscar o emergir da própria singularidade ao lado da singularidade do outro. Todos legitimados em sua autonomia, construindo a própria identidade ao lado da existência do outro.
A crença na autonomia nascendo do pertencimento e o pertencimento autorizando a singularidade.
A lealdade estaria ligada à construção de uma humanidade cooperadora e respeitosa e a peregrinação aos territórios transgeracionais abriria espaços para a construção de novas significações libertadoras das heranças familiares e sociais amplas que pesassem na direção da não legitimação do processo de individuação, da desqualificação das diferenças, baseando-se na repetição e não na construção critica da história.
Meu desejo é receber novos seres para uma sociedade humana que se baseie na ética relacional horizontal, inclusiva, onde as matrizes do desenvolvimento se pautem no respeito ao singular e na valorização concomitante do pertencimento.
Adoraria que em seus valores e crenças cada família pudesse transmitir a possibilidade da existência de um ser autorizado a pensar, desejar, criar e reconhecer-se a si mesmo e ao outro. Nessa posição as famílias dariam origem a uma transformação dos valores sociais atuais. Seriam segmentos transformadores da sociedade em direção à legitimidade de todos os envolvidos.
Desejo que a dança entre as forças de autonomia e pertencimento possam criar uma coreografia onde o eu de cada um possa ir emergindo do nós, ao mesmo tempo que o eu e o nós se encontram, se entrelaçam e se diferenciam.
Essa é a herança que gostaria que deixássemos às nossas crianças e adolescentes. Nós que somos responsáveis por recebê-los!

Para as famílias e os profissionais gostaria de dizer: somos construtores diariamente das relações das quais participamos!
A pergunta: de que  humanidade queremos fazer parte? É respondida em cada conversação da qual participamos e no lugar que oferecemos a nós e aos outros em cada encontro.
 Um momento de introspecção: fechem os olhos, coloquem a mão no coração, respirem fundo e procurem responder.
- Como fui recebido no mundo?
- Qual a pessoa que significa colo para mim?
- O que tenho na minha mochila que facilita a relação na cooperação e no acolhimento.
- Quem me ajudou a desenvolver esses recursos?
- O que tenho na minha mochila que facilita a relação na competição e na violência?
- Quem me ajudou a desenvolver esses recursos?
- Quem ocupou o lugar de sofrimento em minha história?
- Qual a herança que recebi e quero transmitir para a próxima geração?
- Qual herança recebi e quero que termine comigo?
- Qual a cultura que estou construindo em minhas relações?

Para me despedir quero deixar os versos de dois poetas:
Manuel de Barros (2010) com sua sabedoria intuitiva do mundo da criança e João Paiva (2011) com a sensibilidade  do acolhimento:
 “Cresci brincando no chão, entre formigas.
De uma infância livre e sem comparamentos. Eu tinha mais comunhão com as coisas do que a comparação.
Porque se a gente fala a partir de ser criança, a gente faz comunhão: de um orvalho e sua aranha, de uma tarde e suas garças, de um pássaro e sua árvore. Então eu trago das minhas raízes crianceiras a visão comungante e obliqua das coisas” (Barros, 2010).
 “Cada ser que habita este mundo é um poema. Um poema endereçado à casa da hospitalidade. O gesto hospitaleiro abre o  caminho para o parto de todo o começo” (Paiva, 2011).

BIBLIOGRAFIA
BARROS M. Grámatica expositiva do chão. Manoel por Manoel. São Paulo: Leya, 2010.
BAUMAN, Z. Bauman sobre Bauman. Rio de Janeiro: Zahar, 2011
BIRMAN J; AUBERT, N & HAROCHE, C. Je suis vu, donc je suis: la visibilité en question. In: Aubert, N., Haroche, C. (org) Les tyranies de la visibilité. Etre visible pour exister? França: Ers, p. 39-52, 2011.
BOWEN, M. – De la familia al individuo. Barcelona: Paidós, 1979.
BOWLBY, J. – Uma base segura. Porto Alegre:  Artes Médicas, 1989.
COLOMBO S.F. Em busca do sagrado. In: CRUZ H.M. (org.) Papai, mamãe você e eu? São Paulo: Casa do Psicólogo, 2000.
_____________ O papel do Terapeuta em Terapia Familiar: uma ética relacional. In: VALLE M.E; OSÓRIO L.C. (Org.) Manual de terapia familiar. Porto Alegre: Artmed, 2006.
_____________ Gritos e Sussurros interseções e ressonâncias, trabalhando com casais Vol. I e II. São Paulo: Vetor, 2006.
_____________ Como ouvimos nossas crianças. In: Me aprende? (Org.) CRUZ H.M. São Paulo: Ed. Roca, 2012.
_____________Autonomia versus pertencimento: uma interrogação. In: Terapia de Família com adolescentes. (Org.) GARCIA M.L.D; CASTANHO G. São Paulo: Ed. Roca, 2012.
PAIVA, J.A.V – A morada da hospitalidade e o deserto do sem lugar. Monografia orientada por Denise Mendes Gomes apresentada no Instituto Sistemas Humanos como conclusão do curso de especialização em Terapia Familiar. São Paulo:2011.
MEAD, M. – Macho e Fêmea. Buenos Aires: Paidós, 1974.
MORENO, J.L. Psicodrama. São Paulo: Cultrix, 1978.  
SAFRA, G. Revisitando Piggle  Um caso de Psicanálise Segundo a Demanda. Edições Sobornost, São Paulo: 2005.
________________ A face estética do self: Teoria e clínica. São Paulo: Unimasco,1999.
STERN, D. -  A constelação da maternidade. Porto Alegre: Artes médicas, 1997.
WINNICOTT, D. W. -  O Brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Ed. Imago,  1975.


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