Algumas considerações referentes ao processo de Individuação em uma família com deficiente mental.

Este trabalho tem como finalidade refletir sobre o processo de individuação em uma família com um dos membros portador de deficiência mental, para tanto partirei para a narrativa do caso.

 

1996 - Recebi a família: Pai, 39 anos, profissional liberal, trabalha em empresa que presta serviços no exterior); Mãe, 37 anos, com formação superior ); F1 (filho, 12 anos, portador de deficiência mental severa, não faz uso da fala); F2 (filho, 11 anos, saudável, estudante).

 

Leyla Farina                            

Abstract Family with mentally handicapped son. Family Symbiosis and individuation.

Este trabalho tem como finalidade refletir sobre o processo de individuação em uma família com um dos membros portador de deficiência mental, para tanto partirei para a narrativa do caso.

1996 - Recebi a família: Pai, 39 anos, profissional liberal, trabalha em empresa que presta serviços no exterior); Mãe, 37 anos, com formação superior ); F1 (filho, 12 anos, portador de deficiência mental severa, não faz uso da fala); F2 (filho, 11 anos, saudável, estudante).

Esta família veio com histórico de atendimentos anteriores que não prosseguiram.

Foram sessões quinzenais, a princípio em umaInstituição, depois em consultório e por último na residência da família. 

Queixa – transtornos na vida familiar, não sabiam como lidar com os problemas quea deficiência mental do filho F1 trazia, o marido que se ausentava a trabalho (viajava muito), e o filho menor.

Observamos que a queixa principal era como lidar com F1, que tomava todo o tempo livre de todos os membros da família. Este filho era inquieto, mexia em tudo, precisava ser contido durante o tempo da sessão. Não fazia uso da fala. Era considerado pela mãe como normal, igual a qualquer criança.

Mãe - Quando vamos ao supermercado, vejo que F1 é igual às crianças que lá estão. Não tem diferença.

A mãe não se dava conta que F1 é dependente.

Mãe - Quando saímos do supermercado, F1 anda sozinho, não preciso segurá-lo.

T - Observo que você parece não perceber que F1 não tem a possibilidade de atravessar a rua sozinho.

Não obtinham ajuda da família extensa: avós, avôs, tias, tios. A dedicação era total.

O pai, por exercer um trabalho que o mantinha fora do país, era cobrado em relação à ajuda no tratar F1.

O filho F2 demonstrava muito cuidado pelo irmão, poderia dizer que existia até uma doação de amor. Os pais através de sua dedicação transmitiram um modelo de cuidado e amor.

F1 ficava por dois períodos numa escola especial, onde almoçava.

A Mãe falou da permanente agitação do filho F1, contou sobre todos os tratamentos que ele fazia: muitos médicos, acupuntura, homeopatia, escola integral e no momento iniciando Terapia Familiar. Havia perdido o parâmetro da normalidade, dificuldade para sair, contenção física, porque ela não aguentava mais, e que o pai estava dividindo mais os cuidados com a criança. Todo o tempo dela era dedicado para a família, exceto as horas em que F1 dormia. 

T – Não entendo sua colocação sobre a questão da normalidade, penso que você tem o parâmetro da normalidade, e que F1 exerce um controle sobre a família. (tirania)

Mãe: Eu sempre esperava que no dia seguinte, quem sabe, algo aconteceria e o F1 estaria bem. F1 tem aparência igual aos outros meninos. Pode andar na rua sozinho, sem ser segurado. Tem capacidades para se desenvolver. Toda manhã falo para F1 que ele veio ao mundo para trabalhar, se desenvolver, que vai para a escola aprender comoF2. Eu e o F1 somos uma só pessoa.

Na fala da mãe aparece a relação simbiótica vivida com o filho F1.

Segundo Almeida Prado, MCC “uma relação simbiótica é visada e para sua manutenção é preciso que nenhum dos dois parceiros se viva como pessoa total, já que cada um terá necessidade do outro para aceder a algo que pareça a um sentimento de totalidade.”

A mãe depois se deu conta de que não é assim, que ele depende dela, que ela pode faltar e então desloca o eixo para a necessidade de independência máxima que ele deve ter. Mãe e filho sempre monopolizavam a sessão.

Quando perguntado, sobre as questões, o pai se disse reticente num primeiro momento sobre a vinda para Terapia Familiar, mas que percebeu que o atendimento familiar possibilitaria um espaço para os quatro juntosconversassem. Concluiu que a interferência de F1 que não falava, com deficiência mental severa, sem diagnóstico, agitação, sugador dos recursos da família: tempo, dinheiro era tanta que já trazia problemas para o casamento e para F2.

F2falou que se sentia bem, tinha os amigos dele. 

A mãe expressoudificuldade de aceitar ajuda.

Como observa ColetteAudry: “A mãe nunca deixa se lutar pelo filho débil. Quando todos se desesperam à sua volta, ela é a única a prosseguir as consultas, a exigir novos diagnósticos, novas investigações, novos tratamentos. Para ela a resignação é impossível. Milagre do amor materno é o que pensa, cegueira sublime. Ela luta por outro ser como se fosse pela sua própria existência.

Descobre-se que a existência da mãe englobava também a debilidade do filho; que a doença do filho servia para proteger a mãe contra sua angústia profunda.

Lutando pelo filho – para curá-lo sem o curar – era antes por si mesma que lutava, em nome dessa parte doente dele que é ela, e cujo desaparecimento ela não poderia suportar.”

Após o primeiro ano, deixaram o tratamento. Um ano depois, no retorno a mãe estava começando um novo curso universitário, para o qual fez provas vestibulares sem comunicar à família. 

A disfuncionalidade familiar permanecia igual.  

Ainda Audry: “Descobrimos o papel que pode desempenhar a doença de uma criança numa família, o que ela vai representar para todo o grupo, de forma a se tornar impossível distinguir, no seio dessa totalidade, a lesão orgânica original, e saber onde começa a doença do filho e onde acaba a neurose dos pais. 

O psicanalista é aquele que desenreda os fios do destino, faz chegar à palavra o universo imaginário que assedia seu pequeno doente. É quem desobstrui os caminhos da liberdade.

O papel certamente não é fácil.”

Em Mannoni, M: “Qualquer que seja a mãe, o nascimento de uma criança nunca corresponde exatamente ao que ela espera. Depois da provação da gravidez e do parto, deveria vir a compensação que faria dela uma mãe feliz. Ora, a ausência dessa compensação produz efeitos que vale a pena considerar, mesmo que pelo simples fato de nos introduzirem a uma outra ordem de questões ainda mais importantes.

Pois pode acontecer que sejam as fantasias da mãe que orientam a criança para o seu destino

Mesmo no caso em que entra em jogo um fator orgânico, a criança não tem que fazer face apenas a uma dificuldade inata, mas ainda à maneira como a mãe utiliza esse defeito num mundo fantasmático, que acaba por ser comum às duas.

.... A procurar primeiro o sentido que pode ter um débil mental para a família, sobretudo para a mãe, e a compreender que a própria criança dava inconscientemente à debilidade um sentido comandado por aquele que lhe davam os pais.”

A mãe com sua obstinação na esperança da mudança de F1 transferiuo poder (objeto onipotente) para a terapia: “ a terapia tem poder, pode consertar o F1”.Necessitava de autorização para internar F1.

O pai sem esperança:“o problema não é mudar o F1, mas mudar a Mãe”.

A mãe sempre procurando uma solução mágica, queria fazer esses exames modernos, tomografia, etc.

Numa das várias consultas o médico falou que a medicina ainda não descobriu como tratar, pelo relato entendi que F1 seria portador de deficiência mental severa que não podia ser curada.

Mudança de médico.Voltaram para o profissional que o tratava anteriormente. Quando F1 caiu de um muro de 3 metros, ficou em observação. Machucou a parte posterior da cintura. A queda tinha acontecido há um ano num sítio da família. Contaram como se o acontecido fosse recente. A família vivia um paradoxo entre o tempo presente/ e a paralização com a falta de mudança de F1. Sem discriminação, falta de atualização do tempo. 

T – como é o tempo na família?

F2 – o tempo passa depressa, não dá tempo de aproveitar, o convívio da família se perde.

Pai – passa depressa, tudo em função de F1.

Mãe – passa muito depressa. F1 quer todos com ele, não são todos juntos, ao mesmo tempo, mas precisam estar com ele.

T – como vai ser daqui a 10 anos?

F2 – Espero que F1 ...

Pai – (interrompendo F2) Acho que não vai mudar. Fazemos tudo igual para os filhos serem felizes: para  F1 os palitos, se o deixa feliz e para F2 aquilo que vai fazê-lo feliz. Eles são diferentes.

T – F2 seu pai disse uma coisa muito importante hoje. Vocês doissão diferentes. Quem na família fica mais decepcionado com a dificuldade de F1?

Pai – Eu não! Eu sei que é assim, desde os dois anos que estamos procurando, fazendo tudo pelo F1. Mas sei que não muda. É como construir uma casa, sem saber como é construir uma casa. Levantar uma parede e vê-la cair porque não deu certo.

T – Você se conformou?

Pai -Sim. Estou conformado. Talvez, algum dia descubram alguma coisa que faça o F1 mudar. Mas ele estará defasado, porque se passaram muitos anos.

Mãe -Eu não me conformo. Sou a única!

F2 fala que é difícil para ele que os pais pensem de formas diferentes.

Em Mannoni, M:“Toda depreciação da criança é sentida pela mãe como depreciação de si própria. Toda condenação do filho é uma sentença de morte para ela.”

Os pais irão tentar questionar indefinidamente o diagnóstico ( quer dizer, a afirmação do caráter irrecuperável da doença); e, desde o nascimento, o bebê irá tornar-se um cliente habitual dos consultórios médicos.”

Este é um momento de crise para a família, com muito sofrimento. O pai se conforma, como se abandonasse o sonho, fica com a realidade. A mãe continua buscando uma solução.

O funcionamento familiar em crise identifica um padrão disfuncional. A crise é o representante que a família parou no seu desenvolvimento.

Em uma das constantes mudanças de tratamento, ouviram a opinião do médico que sugeriu internação para F1. Optaram pela internação.

O pai não queria internar porque achava que nunca mais iria tirar o filho da instituição.

Aparece o medo da separação.

Mãe: Alguém tem que cuidar da minha cabeça, não posso dar conta da separação. 

A Mãe aparece com Síndrome do pânico, hipoglicemia (por choque emocional).

A separação é sentida como morte. Há perda da capacidade de se diferenciar/individuar. Separação para viver.

Quando F1 está com 17 anos, frequenta uma escola especial. Não dorme ou dorme apenas 2 horas por noite. A medicação não faz efeito. A conta que o marido era contra a internação, quando ela fez a sugestão do internamento.

O marido viaja a negócios, fica 10 dias fora e F1 não dorme durante todo esse período. Ela é chamada pela escola porque F1 não estava bem. Quando chega lá, F1 está com a cabeça caída para trás, não consegue segurar o pescoço. A mãe o leva para o hospital, depois de medicado, voltam para casa.

Quando o marido regressa da viagem, se revezam à noite para ficar com o filho que não dorme ou dorme apenas 2 horas por noite.

O marido volta atrás e resolve pela internação.

Depois de muita procura resolveram comprar  uma cota de uma casa em uma instituição:  AMA – Associação dos Amigos dos Autistas.

Ao se aproximar da idéia de internação/separação do filho F1, a mãe se desespera, tem sensação de morte, fica gelada, tem episódios de pânico. Nas crises de pânico procura o marido e relata que só fica bem quando abraçada a ele. 

Vai ao médico psiquiatra para ser medicada, mas a depressão continua.

Em 2001, F1 é internado.

Para a mãe, todos vão adoecer. Olha a vida como doença. Não suporta se ver separada de F1. Sente a separação como morte.

Almeida Prado, MCC “ O estado psíquico dos diversos membros da família incrementa a complexidade dessa situação devido à insuficiência de sua discriminação resultante de identificações projetivas intensas e à dor da separação, sentida como insuportável. A consciência da morte promove então não apenas um sentimento de culpa mas também angústia irracional.”

Após alguns meses F1 volta para casa. Fica estranho seu comportamento. Parece não se reconhecer em sua casa. 

Segundo o relato da mãe, F1 “pediu” para voltar para a Instituição, como se se reconhecesse “igual” aos que lá estavam.

2002 - O casal viaja para o exterior. 

A mãe começa uma terapia. Observo que está mais inteira, separada do filho, sentindo que tem vida própria. Menos ansiosa. 

O pai muito triste, amargurado. Vivendo o luto da separação do filho. Medicado pela depressão. Trabalha muito. Tem um novo desafio no trabalho. È respeitado pelos estrangeiros que vem ao Brasil aprender com ele.

F2 agora com 17 anos, indeciso sobre a profissão. Terminou o 2º grau. A mãe deseja que ele siga sua profissão. 

Observo que na ausência de F1, a mãe procura transferir para F2 aquele lugar vazio, sem separação. 

Durante a sessão o pai conta que vai trabalhar no exterior durante 6 meses. Como seria para F2 ficar com o pai no exterior, trabalhando ou estudando, antes de fazer exames de vestibular?

Esta foi a última sessão. O trabalho durou 6 anos.

Da fusão/simbiose para a individuação. 

Em 2009 fui convidada para a comemoração do aniversário de 50 anos da mãe.

F1 estava em outra instituição, no litoral de São Paulo. A mãe o visitava vários dias na semana. F2 seguiu a profissão do pai. O semblante do pai me pareceu entristecido.

 

Referências Bibliográficas:

Almeida Prado, M.C.C. – Destino e Mito Familiar : Uma Questão na Família Psicótica – 1999 – Vetor Editora Psico-Pedagógica Ltda.

Audry, C – Prefácio . In: A Criança Retardada e a Mãe – 1993 -  São Paulo – Livraria Martins Fontes Editora Ltda.

Mannoni, M – A Criança Retardada e a Mãe – 1993 – São Paulo – Livraria Martins Fontes Editora Ltda.

Agradecimento: Este atendimento teve a participação da Terapeuta Maria Regina Prata. Trabalhamos em co-terapia dentro do modelo Sistêmico-Relacional.

Autora:

Leyla Farina

Psicóloga. Terapeuta de Família e Casal (ITF – SP Instituto de Terapia Familiar de São Paulo). Psicoterapeuta Psicanalítica (USP – Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo)

Telefone: (11) 3231.4169

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